5.11.21
Xiru
31.5.21
RAP : RITMO E POESIA
6.5.21
Chama
Até ontem nos chamávamos de Amor.
Palavra
que mais expressava hábito que sentimento.
Amor usado como substantivo,
nome paliativo,que em público
ganha tonalidades de pronome possessivo.
Amor. Palavra por impulso, sem ato reflexivo.
Resquícios das últimas usuais relações.
Fetiche da carência.
Casamento novo, apelido antigo.
Já tanto usado, renovado,
lavado e enxaguado.
Roupa desgastada. Tecido velho desfiado.
Banalizado. Palavra vazia.
Até ontem nos chamávamos.
Hoje nada.
Hoje não há palavra para nós.
O que era "Mô" virou Silêncio.
Virou.
Agora já não chamo.
Não faço uso dessa palavra.
Já não sou chamada.
Anseio atenta, na madrugada,
tarde vazia noite enrugada
manhãs solitárias
Que venha o próximo rumor
Para que eu o chame de amor
Para dar pendor
à palavra vazia
Amor:
me convença, pois a carência
já antecipa meu perdão
Fale de novo, faça juras em meu colchão
Que o eterno passa rápido demais
Meu mês
13.11.20
eu abro a boca pra engolir a sede
Fecho os olhos pra aflorar o toque
deixar que as possibilidades aconteçam
E não faço do meu umbigo o centro da chuva
Já há
muito impulso impedido
muita culpa compartilhada
Os desejos vêm sem nome
As entregas com direção
Na tempestade nada se vê,
confundem-se trajetos,
curvas dão em morros.
Fugindo das luzes,
dos sons
Pego a estrada que me contagia.
Fluo, descalço, com os pés ardendo.
Farelos
Em todas as vezes em que me senti tolete, dando aos ares fétida sensação de autodesprezo, fui eu que me dirigi por essas vias Agora, nas outras em que fui contemplado, ganhando o dia fértil sensação de primazia, foi você quem me levou a tal lugar. Conduzo-me por insistências tortas, imprecisas. Mas é dar minhas mãos às suas que me cego ao primeiro entrelaçar de dedos. Falseio o próximo passo pesquisando no ar sua indicação. medito o escuro, ouço a paisagem, sinto a pele áspera ser lixada pelo vento. O trajeto é prazer com calafrio. A queda só acontece ao despir da venda. O destino novo após caminho; O local ao qual fui entregue, é o mesmo! O mesmo caro leitor. Será mesmo que andamos ou foi sedutora descrição de sonhos feita ao pé do ouvido? Ao menos um, dois passos? Tenho certeza que nos movemos, que houve ação. Não estou louco! E pela duração do passeio, afirmo que houveram passos! Sim, saímos do local de início. Mas como é possível ser entregue no mesmo ponto em que houve a partida? Andar em círculos? Não! Eu tenho labirintite, facilmente eu perceberia. Então o quê? E como explicar o cansaço? O suor? As lembranças? Para o próximo convite, jogarei farelos de pão para criar rastro.
9.9.20
Espaço
Procuro
a distância
O
intervalo sem notícias
Um
silêncio, um respiro, uma pausa.
Preciso
mudar os finais dos meus sonhos
Quando
a cabeça
prestes
a emergir do imaginário
inclui
as ideias que passo o dia a apagar
E
a qualquer sinal de distração
Surge
o insistente sentimento
feito
um fantasma rondando
O
Tempo já passou para nós
O
que me incomoda é o Espaço
Presença
física, material, sensorial,
de
falas, olhares, toques apertados,
das
mesmas bocas se encarando.
São
tijolos erguendo-se,
murando
o caminho livre.
Escapo
por infiltração.
Na
ânsia por desfecho
cansei
de ser gotejo.
Quero
fluir sem represamento
Evitar
a presença, o físico
Optar
pelo vão, pelo vazio
Desejar o Espaço
e
contemplar o que não se pode ver
Distância
escura entre as estrelas e os planetas
Pretendo novas gravidades para orbitar
18.6.20
CUIDADO! ATENÇÃO! SENTIDO!
1.6.20
Rua de Cima
10.5.20
27.2.20
Uni versos
Surpreende-me o horário. Não imaginava que os juízes começassem tão cedo.
Talvez meus sonhos me analisem.
Talvez tentem dizer algo.
Mas todas suas palavras são usadas contra mim nesta corte matinal.
Acusam-me de: VAZIO.
Há um vazio enorme em mim.
Não é abismo que permite queda.
Não é carência, vão fútil.
É um novo tipo.
Um vazio extenso feito para fluir.
Ressoar vida,
minha partícula-onda compositora de destinos.
Estou tão átomo, tão matéria, petrificado,
sólido compacto
que só mesmo um ato
de vazio,
desprezando o artesão atrito,
faz-me conflito
ao buscar meu escorrer.
Num universo expansivo
sou anexado ao mundo;
E estico minha matéria;
E mantenho
ampliado
o meu vazio.
22.3.19
Mar Ilha
3.4.18
Out Ônus
tão íntimo e rotineiro.
Exausto pelo convívio, por sua
maior parte o reduzir, corroê-lo.
Exercita o pensamento do outro,
confia ao alheio sua própria estima.
Dependente de momentos que lhe valham,
saciando a fome com migalhas.
Na madrugada aflita, calcula
seus limites em tempos de mudanças.
A sua força vem de rebaixar-se?
De suportar-se pequeno e
portar-se como grande
num jogo ridículo de aparências?
O teu afeto se demonstra em sua
capacidade de ser submisso?
O comodismo esconde certa imaturidade.
Andar em círculos atrai
quem não conhece outro caminho.
21.2.18
e flui menos depressa,
parece arrastar meus minutos em sua espessa gama vagarosa.
Não há profundidade alcançada
nem tampouco gera firmeza
que permita o suporte dos pés.
Então este rio é visual, virtual,
cheio de futuros,
de maravilhosas mudanças advindas da espera.
Que diante dos olhos presentes, desfila
com sua suntuosa e pavorosa grandiosidade
Mas os olhos que assistem são acompanhados dum corpo que os carregam
Estes olhos miram tudo ao redor
e apesar do colossal rio que ganhara espaço nos últimos tempos,
avista outras oportunidades de banho, de refúgio, de contemplação, de vida.
A identidade mora no desejo
e desejo estancado
é vida ávida que avisa.
O corpo necessita banhar-se.
Qual o rio que o convida?
7.1.18
Rio que muda
Esvaem-se,
escorrem feito água corrente
A frente empoçam-se belas incertezas que convidam a submergir
Afundo e, sem abrir os olhos,
ressalto qualquer tipo de sensibilidade
No fundo é que me encontro
No raso não cabem minhas largas braçadas
Tenho mais fôlego do que o raso pode suportar
Quanto mais me aprofundo em mim
menos enxergo e mais sinto.
Esbarro num novo eu
Mas o fundo aperta o peito, incomoda,
faz força pra subir
como se o corpo pedisse para novamente
respirar o mais-do-mesmo,
repetir um exato enredo,
repelir o desconhecido que atrai.
Expando meus pulmões para caber mais vida
Quero-me mesmo é incompleto,
para fazer dos vazios profundidade,
E saber que pouca dosagem é bobagem
Quando se quer ser
ao invés de estar.
4.12.17
Abrir Parênteses
E partimos pra onde?
Sem alvo a gente se projeta.
Sem alvo a gente se protege.
Cuidando do instante
Cultuando o durante
Costurando os desejos, nossos remendos.
Sem destino para não enxergar onde daremos.
Este nosso elã, dosado
para evitar perdições,
mas feito tecido que envolve,
move, absorve, absolve;
Transmuta tolices:
faz um boteco da igrejinha,
da espera-na-fila um grande circo,
do tatame um espaço pra risos.
Altera o meu domínio
Enquanto os corpos interagem
no improviso, espécie de descoberta
de um outro tipo de comunicação.
E como falam bem os nossos corpos.
Tateiam o inevitável impulso,
aprendendo este novo idioma. Conversa sinestésica.
Som traduzido em Gosto traduzido em Cheiro
Transa de ideias.
Trama não encerrada no gozo.
Espécie de paixão que é privilégio pra memória
Que tinge o depois
sem tanger o futuro.
Que se perpetua no presente.
Que me acompanha nos melhores pensamentos.
Que gosta de estar.
Que fica e finca.
27.10.17
Passam. Passion. Paixão.
Crime mútuo entre os envolvidos
Paixão. Passion. Passam.
Então há culpa no sentir?
ou há culpa em querer sentir?
Vejo o desejo botar a ética pra dormir
para provar da solitude; da plenitude.
Nesses jogos conjugais
já assumi todos os papéis
E após tantas temporadas em cartaz,
revezando-me entre todos eles,
escolho o quem mais gosto-de-não-ser, para também
ser um pouco do meu oposto.
pois o hoje de ser eu,
as 3h da tarde no universo,
já não me cabe como sempre.
Crias um roteiro, um rodeio? Enaltece orgulhos,
garimpa belezas e lapida nas descrições.
Vence sempre pela carência.
De ambos
14.8.17
Do árabe: Miskin
sou o ato falho
e exibo o talo
do meus pensamentos.
Ante o trago, eu travo
e grato,
não tardo se eu não trago.
Se há troça na troca,
escapa o teu trato no tato.
Certezas me cerceiam
tanto quanto
dizeres me desnudam.
11.8.17
Gosto
percorrendo seu sabor por toda a boca.
Deixando que a tome o expansivo amargo
que possui todas as recentes e boas bebidas.
Aquelas que modificam a textura do palato.
Provo das menores picâncias.
Como para não sanar. Apeteço com o infinito
sem abrir mão das volumosas guarnições temporais.
É como provar da bebida cara, rara,
que após tantos anos guardada, provoca
o estupor que sempre lhe coubera.
Desengarrafo-me.
Tim-Tim!
11.6.17
Ator do Ato
14.5.17
Desejo
19.2.17
Cortéja
e isto nos difere. Não deveria ferir
Edifiquei-me mirando sempre o que eu ainda não era
Sou eterna continuidade díspar de mim
Acolho as discordâncias para crescer
Transformar é criar, é romper com os moldes
É arte
E refletir com erros é permitir que outros sejam diferentes
É necessário que alguém pense diferente de mim
30.1.17
Retinta
10.1.17
Barra
Dias em fornalhas, fermentando fornalhas
ou cede ou foge.
Enquanto o vento quente rasga abrindo sulcos, forçando
o morno a ferver
o sério a embriagar,
o clérigo a endiabrar
e o esquivo a acontecer.
Não há meio-termo com tanto calor.
A flor da pele escorre o mel.
Os olhos belos escondem tantos futuros.
Tomar o breu do céu
como quem aprecia seu ébrio teor no fundo da boca, sem pressa.
Ondas que colidem, que harmonizam.
Perpetuam intensidades. Guardado
onde a memória não é precisa, pois não é preciso.
Peito carregado de escárnios, escarro!
Respiração fraudulenta,
exausta por tentar afrouxar tantos ideias.
onde, por tamanha simplicidade, não sobem bandeiras.
Certeira e desconexa realidade.
Apreciando o absurdo, o inexato,deparei-me com a origem.
Cais de difícil acesso, de retorno arredio
mas de natureza estonteante,
ameaçadoramente imensa
e involuntariamente convidativa.
Fuga
não fazem do ereto projeções.
O rijo tem prazo, tem instantes para acontecer.
Cabem muito mais loucuras num olhar quase desvendado?
Fui traído pela minha liberdade.
5.10.16
Inédito
21.9.16
És passos
Olhos desatentos que não miram.
Onde estaria aquela mente?Advogando a existência.
Faixas de pedestres, luzes, pessoas, desvios, barulhos.
Nada a interrompe.
A cabeça está no antes,
no interveio, no posto-póstumo.
Está onde não se conserta,
onde só se observa.
Fazendo juízo das palavras ditas em grandes quantidades,
dos excessos de existência,
das intensidades que derramaram em público,
que invadiram com voz o que poderia ser silêncio.
Estamos destinados a caber e vazar?
Possuímos uma fatal liberdade para invadir o espaço de existência d'outro ser.
A mente fluindo no topo de um corpo,
guiando sem esmero a massa que atrapalha os transeuntes.
Caminham no sentido do abandono. Da exclusão.
Problematizações cansam.
É preciso ser oco alguns dias da semana.
O convívio pede padrão.
Transbordo.
Atravesso.
13.7.16
Exposição
feita de traços grosseiros.
Não sei se são obras de Van Gogh,
pintadas à mão pesada com pinceladas grotescas
ou se quadros de Monet
que é preciso espremer os olhos ou afastar-se
para vê-las
Vida vazia vadia valia varia
os olhos secos pedem arte
querem poesia nos estômagos
querem colorir ao existir
Aahh... essas paixões mal inventadas...
Que encaixam devaneios e necessidades
feito peças de Lego
Dentre tantos traços grossos
que nos saltam às vistas,
Dentre quadros valorizados pela moldura,
Abro-me para as paixões.
Mas se eu também estiver condenado
aos mesmos pincéis ásperos
Que ao menos sejam
paixões surrealistas
27.6.16
Minha cabeça pendurada em um cabide
não é o que vivi, tampouco o que li
não é excesso, nem abandono do mundo.
Por muito tempo: Convivências;
por pouco solidão.
Por muito peco: Conivência;
E nenhum erro é coincidência quando reação à oposição.
Oposto ao ego é angústia
Espécie de voz que sussurra, que sutura,
que aflige pelo timbre,
que atinge em meio íngreme.
Que nos avisa sobre o outro. Outros. Outras propostas,
outros caminhos de sucesso. Suscetíveis.
Que me afronta,
que me informa que o ser
não deveria ser.
Que me atenta às novas modalidades de felicidade.
Eis que a minha felicidade,
de tão frágil,
desaparece de súbito
para que eu possa ver além do mundo,
estar contido nele
E me escapa(!) mesmo com uma linda tarde,
com árvores, crianças, crepúsculo, amores
e enebriante sensação de paz.
Sensação de que o ideal não me completa.
Num bizarro avesso,
o ideal, diante de mim, contempla:
o inacreditável ser que precisa de mais,
que precisa de tanto
para tornar-se simples.