8.7.15

É sobre o amargar que eu escrevo.
Sobre palavras ósseas bem vestidas
engordadas por muitos panos.

As verdades que possuem 
a duração de um momento apenas, 
que não perduram.

Palavras devem durar quanto?

Sobre, 
a partir do que fizemos,
não se descubrir quem somos.

O egoísmo que nos apossua 
por um deslize 
distraído 
da razão.

O niilismo abrupto 
causado pela sinceridade.

Palavras devem conter o esboço
de quanto pretendem durar?

É sobre a possibilidade do descrédito, 
confiando somente 
no som proferido pelas folhas, 
pelos ventos e águas livres. No abstrato.

A percepção 
da rara ação
sem interesse.

A necessidade da crença em algo, alguém, alguns, 
amigos, pastores, 
amores, tutores, família; É não estar sozinho

Mas é mais sobre as ações
para o não isolamento,
para ser incluso, para se sentir encaixado.
A permissão para o engano sadio.

Não me adapto ao bem estar das coisas.
É o que me parece
É sobre a incapacidade que aqui rabisco.

É sobre não suportar uma leveza,
por depositar um peso que há em mim

Um peso escuro,
cor de sangue gangrenado
é espesso
não escorre e nem tão pouco esguicha,
não se livra.

Adaptar ou ser adepto
da verdade inconseqüente?

Manter o estômago funcionando, 
afastar-se do sofrimento 
e sobressair;
e sobressair; é o que nos torna
destacados dentre a manada.

Ser reconhecido,  bem reconhecido,
é o que nos conforta
para seguir com a repetição dos dias.

Mas seremos perdoados...

Vejo uma moral!
Torpe, turva,
que já nos absolve.

23.6.15

Estou bem, e você?

E se resolvesse assumir-me para o mundo,
ser militante de mim, afrontar?

Cansei de fingir não ser doente, não sermos todos.

A todo tempo nos perguntam: “Você está bem?”.
Pergunta vazia, nós bem sabemos, apesar de carinhosa algumas vezes.
Como respondê-la, 
assumir que estar bem é consentir com o mundo?

Portanto não estou bem, 
com essas as pessoas que nos cercam,
mantenedoras da ordem, alguns mantenedores fervorosos. 
Uma ordem em constante mudança
e em constante conservação das recentes conquistas. 
Seja pelo uso da força e violência justificada
ou pela opressão silenciosa e histórica
,algo é mantido. Por uma multidão.

Que estranho é vestir-se todo de amarelo entremeio um amontoado de pessoas vestidas de azul.
Imagine mesmo!! 
A imagem é pobre, eu sei, mas imagine-se sobre uma colina, em qualquer parte dela,
com muitos ao seu redor, todos vestidos de um azul-marinho único e você todo de amarelo.
O que faria? Teria que fazer algo certo?

Estranho sentir essa necessidade de manifestar ação
perante a uma percepção do que o todo coletivo faz. 
Há uma força sugestiva. Pesada, que resiste à vontade de viver.

Uma etiqueta de comportamento; de fisionomia; de corpos modelados e parecidos;
de talheres sobre a mesa, gostos sem texturas;

o saciamento causado pela bajulação do ego; a negação da morte;
o culto da alma em demérito do corpo; o ódio ao prazer;
a liberação, aos poucos, do que se permite fazer sexualmente;

as vidas inscritas nos livros; a arte como decoração;
uma vida virtual incrivelmente feliz; o corte de cabelo;
o não conhecimento das pessoas que moram no seu quarteirão,
na sua rua, no mesmo prédio;
o bom-dia dito numa espécie de oi matinal;
o “fica com Deus” ser recebido como um abraço;

o uso de roupas, com a finalidade de esquentar e proteger quase esquecidas;
a domesticação e o excedente necessário de carnes no mercado; 
os tributos; a família; os feriados;

os empregos;
as saídas de sexta-feira a noite; as dormidas no domingo;
os sete dias da semana ao invés de dez com três semanas no lugar de quatro, os doze meses.

o reconhecimento imediato de riquezas;

Empenhos por recompensas;
a entrega de frações de vida a seres mitológicos;
a fome prática, que alimentada diariamente, sustenta uma alta movimentação monetária
na qual não participa;

a necessidade de termos tutores;

São vontades e preocupações extra corpo, fora do material.
São concessões diárias que fazemos sem perceber. Ou mesmo que se percebam algumas,
ainda estaremos cedendo em partes encobertas. São tantas.
E mesmo que se quebre uma ordem, faremos outro pro lugar. Mas não importa.
Desde que se mude os aspectos que nos cerceiam.

E se resolvêssemos afrontar o mundo?
Mesmo que seja de uma maneira prática e individual.
E se resolvesse assumir-se para o mundo, ser militante de si?
Que mundo teríamos?
Manteria muita coisa? Experimentaria?

Talvez esteja ansioso
para viver hoje um mundo que não será hoje.

São muitas as pessoas alheias à manutenção da ordem e do progresso
e que a sustentam. 
E de uma maneira que só se lembram das dores ocasionalmente.

Permito ficar bem sem consentir com o mundo,
sem estar bem,
viver apenas o que está ao alcance das horas
e abstrair-me da resistência ao novo.

Mas antecipar a história
é tentativa abandonada que me corrói por dentro.



2.2.15

Sobre

Preciso escrever.
Sinto-me cheio. Entupido.
Preciso vazar.

Há pensamentos
de todas as formas e cores
Projeto a lança sobre o rio de água espessa.
Espéto! Em cheio no vazio.

Sobre o vazio divago, não escrevo. Fico.

Outra vez,
              a lança.     Zum!
Espetei
E trouxe à margem aquele pensamento pesado
E grande; Seria mais difícil errá-lo.

Deixei-o sem ar por alguns segundos. Sufoquei-o.
Não por sadismo ou curiosidade;
Para as frases virem.
    E chegaram muitas.

Frases de todas as cores
e intenções,
repetidas e descobertas.
Mas devolvi o pensamento ao rio.
Escrevê-lo seria uma espécie de culto à falência,
regar folhas secas,
levar flores a jazidos, homenagear o que não está.

Também não ousei arrancá-lo.
E não sei bem porque não o fiz.
Talvez medo de perceber que, além, existiria apenas oco
e nada mais.
Mas medo é uma coisa que não sinto há um tempo. É uma pena

Apenas precisava escrever. Gotejar.
Bastou.

Espero novas chuvas.

15.1.15

Canto do Ator

Não me contenho
Quando numa cena cabem mais cenas
não desvio nem deviro
A outra, que me chama, não terá chama, pois permaneço
por necessidade de expandir
buscando entender
onde se inicia o esgotamento
e onde se finda aquele infinito

Não sobrecarregue a palavra ator de interpretações que já conhece
Não se atreva a sequer carregá-la consigo
Deixa-a onde está

Não há jogo de simulação.
É menos que isso
É viver reinventando