14.5.17

Desejo

Pretensões exasperam. Asperam o agora.
Não esperam.
Projetar e desejar é consentir que o hoje escape.
É como não aproveitar o que está posto,
é como dispensar a janta pela sobremesa estando com fome.

O paraíso é horizonte que nos persegue.

Eis um conselho antigo sobre o futuro:
“Abra mão do hoje pelo depois. O futuro: O que importa!
Esta vida é passagem,
faça dela uma porta de entrada para o reino-dos-céus
lugar onde não haverá sofrimento e nem dor.”
Desconfio.
Onde não há dor nem sofrimento, haverá espaço para amar?

Com quem desejou estar hoje?
Pretender nos toma o presente.
O futuro é um adorno do real.

O desejo só é desejo se inalcançável?

19.2.17

Cortéja

Penso diferente de você 
e isto nos difere. Não deveria ferir

Edifiquei-me mirando sempre o que eu ainda não era 
Sou eterna continuidade díspar de mim

Acolho as discordâncias para crescer
Transformar é criar, é romper com os moldes
É arte

E refletir com erros é permitir que outros sejam diferentes
É necessário que alguém pense diferente de mim

30.1.17

Retinta

O grave retinto marca, anuncia
o repique repelique dos tambores, dos prazeres, dos gingados
é cor, é suor, é destino, é raça, é ode
é onde desaguam, desatam tantos dizeres
é quando o corpo cala o mundo para poder dançar

Energia vital e retumbante
que transforma tudo em corrente, atraente
beleza negra, fértil e intocada em respeito às liberdades
a menina sambou leve feito o vento
abandonou seus abandonos e sorriu
quis ser levada como nada
e acolhida como única, que és
beleza que não se encerra, que vela a madrugada
que me desperta pela manhã, que fica na memória como retina queimada pela luz
em tudo se reflete
e agora toda besteira é desculpa para abrir um riso
há um riso em todo canto

O dia clareou e a harmonia do samba continua a soar, a rebater, a  sacudir o novo rumo ao pretensioso inesperado

10.1.17

Barra

O verde-mastro dos galhos abriga vidas escaldantes.
Dias em fornalhas, fermentando fornalhas
ou cede ou foge.
Enquanto o vento quente rasga abrindo sulcos, forçando 
o morno a ferver
o sério a embriagar,
o clérigo a endiabrar
e o esquivo a acontecer.

Não há meio-termo com tanto calor.
A flor da pele escorre o mel.
Os olhos belos escondem tantos futuros.

Tomar o breu do céu 
como quem aprecia seu ébrio teor no fundo da boca, sem pressa.
Ondas que colidem, que harmonizam. 
Perpetuam intensidades. Guardado 
onde a memória não é precisa, pois não é preciso.

Peito carregado de escárnios, escarro!
Respiração fraudulenta,
exausta por tentar afrouxar tantos ideias.
onde, por tamanha simplicidade, não sobem bandeiras.
Certeira e desconexa realidade.

Apreciando o absurdo, o inexato,deparei-me com a origem.
Cais de difícil acesso, de retorno arredio
mas de natureza estonteante, 
ameaçadoramente imensa
e involuntariamente convidativa.

Fuga

Os beijos bons 
não fazem do ereto projeções.

O rijo tem prazo, tem instantes para acontecer.

Cabem muito mais loucuras num olhar quase desvendado?

Fui traído pela minha liberdade.

5.10.16

Inédito

Não há como ser repetição
nem o vento, nem o rio
nem o choro, o motivo
o embarque fugidio
o espesso dia esquivo
Nada.
Mesmo a rotina acumulada
é somada sem interrupção.

É inédito o que não se renova.

Energia viva latejante
que tinge, que tange
que açoita as bestas para que andem
célere rastro assoreando os passos
que traga meus tropeços
Engolido vida adentro
Atento assento o equilíbrio
Brio.


Fico urgente de acerto.

21.9.16

És passos

Passos fundos...
Olhos desatentos que não miram.
Onde estaria aquela mente?Advogando a existência.

Faixas de pedestres, luzes, pessoas, desvios, barulhos.
Nada a interrompe.

A cabeça está no antes,
no interveio, no posto-póstumo.
Está onde não se conserta,
onde só se observa.

Fazendo juízo das palavras ditas em grandes quantidades,
dos excessos de existência,
das intensidades que derramaram em público,
que invadiram com voz o que poderia ser silêncio.

Estamos destinados a caber e vazar?
Possuímos uma fatal liberdade para invadir o espaço de existência d'outro ser.

A mente fluindo no topo de um corpo,
guiando sem esmero a massa que atrapalha os transeuntes.
Caminham no sentido do abandono. Da exclusão.

Problematizações cansam.
É preciso ser oco alguns dias da semana.

O convívio pede padrão.
Transbordo.
Atravesso.

13.7.16

Exposição

Ahh... essas paixões inventadas...
feita de traços grosseiros.

Não sei se são obras de Van Gogh, 
pintadas à mão pesada com pinceladas grotescas 
ou se quadros de Monet
que é preciso espremer os olhos ou afastar-se
para vê-las

Vida vazia vadia valia varia 

os olhos secos pedem arte
querem poesia nos estômagos
querem colorir ao existir

Aahh... essas paixões mal inventadas...
Que encaixam devaneios e necessidades
feito peças de Lego

Dentre tantos traços grossos 
que nos saltam às vistas,
Dentre quadros valorizados pela moldura,
Abro-me para as paixões.

Mas se eu também estiver condenado
aos mesmos pincéis ásperos
Que ao menos sejam 
paixões surrealistas

27.6.16

Minha cabeça pendurada em um cabide

A ausência que preenche e não nomeia o vazio
não é o que vivi, tampouco o que li
não é excesso, nem abandono do mundo.

Por muito tempo: Convivências;
por pouco solidão.
Por muito peco: Conivência;
E
 nenhum erro é coincidência quando reação à oposição.

Oposto ao ego é angústia
Espécie de voz que sussurra,  que sutura,
que aflige pelo timbre,
que atinge em meio íngreme.

Que nos avisa sobre o outro. Outros. Outras propostas, 
outros caminhos de sucesso. Suscetíveis.

Que me afronta, 
que me informa que o ser
não deveria ser.

Que me atenta às novas modalidades de felicidade.

Eis que a minha felicidade,
de tão frágil, 
desaparece de súbito 
para que eu possa ver além do mundo,
estar contido nele

E me escapa(!) mesmo com uma linda tarde,
com árvores, crianças, crepúsculo, amores 
e enebriante sensação de paz.
Sensação de que o ideal não me completa.

Num bizarro avesso, 

o ideal, diante de mim, contempla:
o inacreditável ser que precisa de mais,
que precisa de tanto
  para tornar-se simples.

7.6.16

Cidade por fora e por dentro

A cidade passa sem fazer pose
Como se eu não a estivesse observando.
A cidade, age, desinibida,
por impulso
pulso, pulso...

A cidade não gangrena,
engendra para escoar,
para dividir, segregar
para sempre faltar e ter onde pedir.

A cidade que amputa seus filhos
e depois lhe dá muletas.
Próteses
de sentidos,
de existência,
de contextos, de casas-maderite,
de justiça-divina-tardia,
de ruas molhadas com pés descalços,
de felicidade e descanso permitido com limite de 48h.

Eu, dentro do aquário ambulante,
a caminho de me encontrar, observo seus filhos e órfãos,
as devastadas paisagens substituídas
por arquitetura retilínea que entedia os olhos.

A cidade desliza por fora ante ao meu destino,
desatenta a mais um observador,
faz-se de desentendida
e abriga no mesmo teto aberto
oprimido e opressor.

A cidade que observo me desvia a atenção e direção
Suga-me para seus problemas estampados em cada parede
e coloca-me no centro, onde clarão e escuro cegam igualmente,
onde não há voz para tanto grito.

A cidade de prédios abandonados e estacionamentos vazios
está em ruínas embora não esteja frágil.
Ainda é boa e aconchegante para alguns filhos.

Edifica-se a hora dos órfãos se apossarem.

Mas o privilégio priva,
o privilégio priva
privilégio priva, priva.

Cerceia.

7.3.16

Abrigo de desconstruções

Os últimos dias têm sido mais largos.
Fronteiras traiçoeiras confundem-me, expandem o que sou, dilatam os meus limites.
Vai cabendo. Vai cabendo.
Até chegar ao ponto d´eu não saber definir-me. Não há como.

Relações de todo o tipo me relativizam
da miséria ao distraído,
do fodido ao desapegado,
do abandonado ao político,
do intrínseco ao estripado,
do artista ao mais-do-mesmo.

Progressos, demolições, processos, opressões, privilégios, privilégios.
Por privilégios. Manutenção.

Projetos sobre o amor, a liberdade, a equidade, são descabidos.
Sem propósitos. Não cabe.
Não cabe agora. Mas Porra! Agora?

Havemos de ser ração
ou querer ser outro e abrir-se para a sensação do descabido.
Pertencer sem ocupar.

Por meios legais e coerentes,
sofremos infindas ofertas de ocupar a nós e desocupar.
Como um ciclo respiratório,
recuperando o fôlego no limite de não suportar.

Por que possuímos reação imediata às palavras? Como:

Ócio. – É preciso mais ócio.
Ganhar. – A disputa do zigoto evoluído.
Nacionalidade. – Respeito às riscas imaginárias, aos costumes, tradições, identidade.

Ao responder para o outro que me pergunta, há um cansaço. Os olhos pesam.
A boca seca por não saber escorrer tantos dias recentes.
Então entrego pouco, quase não falo.  A vista foge para o chão num desinteresse.  
É perseguir horizontes.

Não busco uma melhor compreensão
enquanto recluso ou durante uma conversa.
Não há tempo para isso. Novas pancadas virão.

Dias largos que se aprofundam. Vai cabendo, aumentando.

Por vezes faço do ébrio, do translúcido,
artifício para acariciar o tempo, para ralentá-lo como música, atrasá-lo.
Brinquedo para a alma,
como crianças num parquinho aproveitando os últimos momentos
num terreno em desapropriação.
Um souvenir da inocência. Um deleite em meio ao caos.

Senão
arrasta-me junto com as bordas dos dias, apressado por fazer caber mais. E faz.
Sorte!
Sabe-se lá o que serei se em mim couber mais espaços.


Abrigo de desconstruções.

9.11.15

Apresento-me

Apresento-me não pronto.
É assim que estou, que destôo.
Inacabado, assim... ainda por fazer.

Mas se você disser:agora eu quero,
Se você disser
e eu não entender.. Então eu escuto.

Venho dar às caras
o rurbor que tanto nos falta,
que se amedronta dentro de nós,
que não adoece,
que se desfaz e faz,
que sem disfarce, cede.
Parte.

E vai sem parte minha. Larga-a
na melhor das questões existenciais,
como tem que ser.

O amor é a mais carnal das ilusões.
Um universo de Pessoas, tantas,
mas tantas para investigar.

E durante a melada investigação
percebe-se uma distância nova
Algo sobre nós.
Algo, ego, intrínseco.

Percebe-se que o ser investigado,
o tempo inteiro, era o ego, o Eu.

Sabendo-se vendo-se no outro

No teu seio
a carícia de uma companhia
No teu peito
voa a liberdade

8.7.15

É sobre o amargar que eu escrevo.
Sobre palavras ósseas bem vestidas
engordadas por muitos panos.

As verdades que possuem 
a duração de um momento apenas, 
que não perduram.

Palavras devem durar quanto?

Sobre, 
a partir do que fizemos,
não se descubrir quem somos.

O egoísmo que nos apossua 
por um deslize 
distraído 
da razão.

O niilismo abrupto 
causado pela sinceridade.

Palavras devem conter o esboço
de quanto pretendem durar?

É sobre a possibilidade do descrédito, 
confiando somente 
no som proferido pelas folhas, 
pelos ventos e águas livres. No abstrato.

A percepção 
da rara ação
sem interesse.

A necessidade da crença em algo, alguém, alguns, 
amigos, pastores, 
amores, tutores, família; É não estar sozinho

Mas é mais sobre as ações
para o não isolamento,
para ser incluso, para se sentir encaixado.
A permissão para o engano sadio.

Não me adapto ao bem estar das coisas.
É o que me parece
É sobre a incapacidade que aqui rabisco.

É sobre não suportar uma leveza,
por depositar um peso que há em mim

Um peso escuro,
cor de sangue gangrenado
é espesso
não escorre e nem tão pouco esguicha,
não se livra.

Adaptar ou ser adepto
da verdade inconseqüente?

Manter o estômago funcionando, 
afastar-se do sofrimento 
e sobressair;
e sobressair; é o que nos torna
destacados dentre a manada.

Ser reconhecido,  bem reconhecido,
é o que nos conforta
para seguir com a repetição dos dias.

Mas seremos perdoados...

Vejo uma moral!
Torpe, turva,
que já nos absolve.

23.6.15

Estou bem, e você?

E se resolvesse assumir-me para o mundo,
ser militante de mim, afrontar?

Cansei de fingir não ser doente, não sermos todos.

A todo tempo nos perguntam: “Você está bem?”.
Pergunta vazia, nós bem sabemos, apesar de carinhosa algumas vezes.
Como respondê-la, 
assumir que estar bem é consentir com o mundo?

Portanto não estou bem, 
com essas as pessoas que nos cercam,
mantenedoras da ordem, alguns mantenedores fervorosos. 
Uma ordem em constante mudança
e em constante conservação das recentes conquistas. 
Seja pelo uso da força e violência justificada
ou pela opressão silenciosa e histórica
,algo é mantido. Por uma multidão.

Que estranho é vestir-se todo de amarelo entremeio um amontoado de pessoas vestidas de azul.
Imagine mesmo!! 
A imagem é pobre, eu sei, mas imagine-se sobre uma colina, em qualquer parte dela,
com muitos ao seu redor, todos vestidos de um azul-marinho único e você todo de amarelo.
O que faria? Teria que fazer algo certo?

Estranho sentir essa necessidade de manifestar ação
perante a uma percepção do que o todo coletivo faz. 
Há uma força sugestiva. Pesada, que resiste à vontade de viver.

Uma etiqueta de comportamento; de fisionomia; de corpos modelados e parecidos;
de talheres sobre a mesa, gostos sem texturas;

o saciamento causado pela bajulação do ego; a negação da morte;
o culto da alma em demérito do corpo; o ódio ao prazer;
a liberação, aos poucos, do que se permite fazer sexualmente;

as vidas inscritas nos livros; a arte como decoração;
uma vida virtual incrivelmente feliz; o corte de cabelo;
o não conhecimento das pessoas que moram no seu quarteirão,
na sua rua, no mesmo prédio;
o bom-dia dito numa espécie de oi matinal;
o “fica com Deus” ser recebido como um abraço;

o uso de roupas, com a finalidade de esquentar e proteger quase esquecidas;
a domesticação e o excedente necessário de carnes no mercado; 
os tributos; a família; os feriados;

os empregos;
as saídas de sexta-feira a noite; as dormidas no domingo;
os sete dias da semana ao invés de dez com três semanas no lugar de quatro, os doze meses.

o reconhecimento imediato de riquezas;

Empenhos por recompensas;
a entrega de frações de vida a seres mitológicos;
a fome prática, que alimentada diariamente, sustenta uma alta movimentação monetária
na qual não participa;

a necessidade de termos tutores;

São vontades e preocupações extra corpo, fora do material.
São concessões diárias que fazemos sem perceber. Ou mesmo que se percebam algumas,
ainda estaremos cedendo em partes encobertas. São tantas.
E mesmo que se quebre uma ordem, faremos outro pro lugar. Mas não importa.
Desde que se mude os aspectos que nos cerceiam.

E se resolvêssemos afrontar o mundo?
Mesmo que seja de uma maneira prática e individual.
E se resolvesse assumir-se para o mundo, ser militante de si?
Que mundo teríamos?
Manteria muita coisa? Experimentaria?

Talvez esteja ansioso
para viver hoje um mundo que não será hoje.

São muitas as pessoas alheias à manutenção da ordem e do progresso
e que a sustentam. 
E de uma maneira que só se lembram das dores ocasionalmente.

Permito ficar bem sem consentir com o mundo,
sem estar bem,
viver apenas o que está ao alcance das horas
e abstrair-me da resistência ao novo.

Mas antecipar a história
é tentativa abandonada que me corrói por dentro.



2.2.15

Sobre

Preciso escrever.
Sinto-me cheio. Entupido.
Preciso vazar.

Há pensamentos
de todas as formas e cores
Projeto a lança sobre o rio de água espessa.
Espéto! Em cheio no vazio.

Sobre o vazio divago, não escrevo. Fico.

Outra vez,
              a lança.     Zum!
Espetei
E trouxe à margem aquele pensamento pesado
E grande; Seria mais difícil errá-lo.

Deixei-o sem ar por alguns segundos. Sufoquei-o.
Não por sadismo ou curiosidade;
Para as frases virem.
    E chegaram muitas.

Frases de todas as cores
e intenções,
repetidas e descobertas.
Mas devolvi o pensamento ao rio.
Escrevê-lo seria uma espécie de culto à falência,
regar folhas secas,
levar flores a jazidos, homenagear o que não está.

Também não ousei arrancá-lo.
E não sei bem porque não o fiz.
Talvez medo de perceber que, além, existiria apenas oco
e nada mais.
Mas medo é uma coisa que não sinto há um tempo. É uma pena

Apenas precisava escrever. Gotejar.
Bastou.

Espero novas chuvas.

15.1.15

Canto do Ator

Não me contenho
Quando numa cena cabem mais cenas
não desvio nem deviro
A outra, que me chama, não terá chama, pois permaneço
por necessidade de expandir
buscando entender
onde se inicia o esgotamento
e onde se finda aquele infinito

Não sobrecarregue a palavra ator de interpretações que já conhece
Não se atreva a sequer carregá-la consigo
Deixa-a onde está

Não há jogo de simulação.
É menos que isso
É viver reinventando

23.12.14

Resposta

Drogado,
de merda. Não passa.
Realmente há coisas que não passam,
independente de intensidades, de vontades
de mim ou de você.

Merda é o corpo que fica,
decomposto, disposto
à renovação, à vida eterna.

Drogados, todos somos.
de merda, de calmantes, de crenças,
de rotinas, de segredos, de toxinas alimentares
de carga horária empregatícia,
de transtornos de humor, de ansiedade, de dinheiro.

Não passo de um zé ninguém,
de um zé alguém. Não passo, mesmo.
O que nos faz piores ou melhores? As diferenças?
Não! 
São os pontos de vistas impregnados de certezas.

O cristianismo (não Cristo!)
e seus consumidores nos definem exemplarmente há anos.
Violentos pregadores da paz.

Já percebeu a sensação boa que lhe bate
ao definir que o outro é torto, que ele está errado?

É a autoafirmação em praça pública!!!

É o soterramento da dúvida latejante 
que nos questiona como Ser.
É um pedido carente desesperado por um abraço, um consolo.
Fodam-se os questionamentos... Vamos!

Vamos seguir o rebanho
que caminha a mesma trilha há séculos.

E... se ainda não chegaram lá,
Não se teve notícias de que se chegaram lá, certo?
acredito que ainda estejam andando em círculos.

E o tal do inquisidor que não desce dos céus
para fazer justiça, para devorar os que vivem?

Para satisfazer essa vontade humana
de exterminar os diferentes,
que seguem mesmo sem consulta ou autorização divina.

Não passa... Não passo.  

Não posso. Não ultrapasso mesmo nenhum Zé,
somos mais do mesmo de uma forma ou de outra.
Fique com os seus remédios e eu fico com os meus.

Talvez não possua futuro. Mas quem é que o possui?
Quem o guarda no bolso e o relê enquanto viaja de trem?

Não posso, não possuo tamanha...

O presente é muito mais latente!
E o passado se apega ou se apaga.
Talvez seja isso outra escolha.

Agora quanto aos vícios, seus ésses raivosos
e essa minha tendência para contrariar a moral estabelecida,
não posso discordar.  Sou cheio deles.

Alguns realmente me preenchem.

Encha a boca com fumaça,
recomendo a verde ao invés da cinza,
encha com silêncio, com vida própria, com arte, com mais suspeitas que certezas.

E não abafe o som que estreita seus ouvidos.
Apesar da dificuldade, você perceberá simplicidades. 

O mundo está mais para os errantes.

8.12.14

Tapete

O contrabaixo andante ditava o ritmo.
Minhas idéias eram palavras soltas
fazendo sons no pensamento. 
Meus conflitos dançavam.
Toda ideia era calma. 

Rasga! O Sopro do mestre. Deus? 
Deu-se num Sax.
Rompendo no peito feito flecha com farpas.
Despregando as amarras. Evadindo o próprio corpo.

Olhar o nada e largar-me ocorreu numa ação dessabida. Aquele grave com som de madeira que abraçava a cintura, levava-me.
Aquela corrida de notas sopradas sem freio, sem pouso, lembrava-me tanto a vida.
Mas qual? Coltrane é de 60. 

Estou novamente atrasado.
Mas o tempo necessário foi tomado, até o último gole. 
Houve atraso, não desperdício do tempo.
Mas como explicar pra quem é regrado?

Pés descalços, 
cigarro na mão esquerda repousada sobre o cinzeiro de plástico.
Costas no tapete, olhos para o teto.
Fumaça densa subindo em ésses.

Desejo de mato, de advinhar a chuva pelo cheiro, da noite extremamente longa, desejo do silêncio com cigarras, 
desejo de um trago longo. 

Ficou sem cigarros. Correu à padaria em frente para comprá-los. Lá, 
distraiu-se rapidamente com uma televisão ligada, sorriu para a caixa e saiu. Esqueceu-se do que pensava, de concluir. Trocou de pensamento na volta pra casa. Desviou o dia.

4.12.14

Bate o pé na estrada

Bate o pé
estrada bate
Arvoçoa fragmentos
de terra
misturados com lamentos
que enterra
Poeira à beira
enquanto bate
estrada parte
no pé

Tão pouco se dá conta
que é na ponta
que o deleite se encontra

Bate o pé na estrada
rumando o horizonte fugitivo
que é caminho, é onde se está 
é o que passa, mas nunca laça 
o destino ser esquivo

Estrada bate
Nada abatido
Pé no embate

A estrada bate
enquanto passa
e ainda há muito o que passar

No calcanhar sofrido
terra batida, apanhada
contando uma história, trajetória
qual curva eu não entrei,
onde corri onde parei
terra que acolhe o passo sem amortecer
estrada que recolhe o vasto para caber
já sofri já fiz sofrer
bate o pé estrada
Estrada bate

há sempre um empate em perder

24.8.14

Mundo palco mundo

Esse peito com mil cortes precisa respirar.
Venha!
Saia para ver o mundo. O meu.
O seu que te espera ansiosamente do lado de fora.

Deixa-se provocar; É preciso uma nova inquietude.

Não me espere para ver o mundo,
os lugares estão ai para nos distribuirmos.

Não me áspére para haver no mundo,
não posso proteger-te dele.
Mal posso proteger-te de mim.

Tenho medo de que teu sorriso se assuste. Não sei o que espera.
Não se aguarde mais. A vida precisa vê-la.

As ruas são palcos, você bem sabe.
Mas Shakespeare já escreveu todos os amores possíveis,
Bukowski todos os desejos reprimidos
e Dostoievski...
Ah! Dostoievski é um chato que roubou todos meus escritos.

Esqueça essas palavras bem arranjadas,
todas guardadas há tempos em papéis.
Deixem-nas para os intelectuais apoiarem seus melhores argumentos,
para provarem que são mesmos incríveis por se coincidirem com as histórias.

Sejamos medíocres mortais, amando como tais.

Você precisa de uma nova dramaturgia escrita pelas tintas do acaso.

Sentir o sol esquentar a carne,
as carnes se desembrulhando na cama.
Sentir um vento gelado roçando sua nuca suada; Sentir alívios.

Sentir o cheiro da novidade sobre a grama verde.

11.8.14

Um Quarto

Faltam detalhes nesta parede. Veja(!) 

Está muito colorida de uma só cor.
Faltam respingos inesperados, sabe?

Quadros e retratos não! Já não bastam... 
Há uma séria carência nelas, percebe?
Faltam manchas, riscos entrecortados, frases ou poesias. 

Não sei, mas essa ideia me parece um tanto óbvia.
Mas falta algo, concordo... Sabe o quê, exatamente?

Talvez....mudar os móveis de lugar... 
Isso pode trazer um novo aspecto. Uma euforia diferente, ainda não experimentada.

Mesmo quando tudo se esvazia
e, ainda assim, não sobra espaço.

Suas paredes não se movem. Demarcam e impedem a expansão.
Este canto está cheio de uma pessoa só.

O teto diz que já se enjoou do seu olhar,
a parede se queixa do seu timbre de voz,
o chão está mais frio de propósito, como repulsa,
os livros se espremem na estante, evitando-te,
as cortinas clamam por um sopro de vento para bailar.

Janelas inertes, móveis se movem agitados.

Olhos procurando por todo o quarto uma saída.

Acharam uma entrada.
Um feixe de sol penetrando o casulo, iluminando o mergulho das poeiras.

De joelhos, perante o invasor, perceberam o que faltava.
Não era um quarto; Não era meio.
Muito menos inteiro.

Encaixaram o olho no filete de luz, deixaram-se cegar.

2.7.14

Cedo

Nesta tarde confusa, confusão não houve.
Nestes dias corridos, não houve tempo, nem houve pressa;

Houve apenas a tarde
que nem tarde chegou. Veio no momento certo, no hoje.

A tarde de um dia longo, duma noite esquiva que deixa o desejo
e retimbra o conceito de saudade.

Houve poesia, Manoel de Barros,
imperceptivelmente Pessoa
e inevitavelmente Quintana.
Uma discreta e irrisória Janis Joplin na cabeça.

Não houve o que se ouve por ai.

Existiram os dois maiores poetas
escrevendo aquela tarde... durante aquela tarde.

Houve nós dois. Criativos incansáveis driblando a vida
Poetizando através de percepções, de escritas com o tato
de saliva muda com gosto de sangue.

Recriando a vida,
afirmando para nós mesmos
que fluir mesmo
é escorrer contra o fluxo