24.8.14

Mundo palco mundo

Esse peito com mil cortes precisa respirar.
Venha!
Saia para ver o mundo. O meu.
O seu que te espera ansiosamente do lado de fora.

Deixa-se provocar; É preciso uma nova inquietude.

Não me espere para ver o mundo,
os lugares estão ai para nos distribuirmos.

Não me áspére para haver no mundo,
não posso proteger-te dele.
Mal posso proteger-te de mim.

Tenho medo de que teu sorriso se assuste. Não sei o que espera.
Não se aguarde mais. A vida precisa vê-la.

As ruas são palcos, você bem sabe.
Mas Shakespeare já escreveu todos os amores possíveis,
Bukowski todos os desejos reprimidos
e Dostoievski...
Ah! Dostoievski é um chato que roubou todos meus escritos.

Esqueça essas palavras bem arranjadas,
todas guardadas há tempos em papéis.
Deixem-nas para os intelectuais apoiarem seus melhores argumentos,
para provarem que são mesmos incríveis por se coincidirem com as histórias.

Sejamos medíocres mortais, amando como tais.

Você precisa de uma nova dramaturgia escrita pelas tintas do acaso.

Sentir o sol esquentar a carne,
as carnes se desembrulhando na cama.
Sentir um vento gelado roçando sua nuca suada; Sentir alívios.

Sentir o cheiro da novidade sobre a grama verde.

11.8.14

Um Quarto

Faltam detalhes nesta parede. Veja(!) 

Está muito colorida de uma só cor.
Faltam respingos inesperados, sabe?

Quadros e retratos não! Já não bastam... 
Há uma séria carência nelas, percebe?
Faltam manchas, riscos entrecortados, frases ou poesias. 

Não sei, mas essa ideia me parece um tanto óbvia.
Mas falta algo, concordo... Sabe o quê, exatamente?

Talvez....mudar os móveis de lugar... 
Isso pode trazer um novo aspecto. Uma euforia diferente, ainda não experimentada.

Mesmo quando tudo se esvazia
e, ainda assim, não sobra espaço.

Suas paredes não se movem. Demarcam e impedem a expansão.
Este canto está cheio de uma pessoa só.

O teto diz que já se enjoou do seu olhar,
a parede se queixa do seu timbre de voz,
o chão está mais frio de propósito, como repulsa,
os livros se espremem na estante, evitando-te,
as cortinas clamam por um sopro de vento para bailar.

Janelas inertes, móveis se movem agitados.

Olhos procurando por todo o quarto uma saída.

Acharam uma entrada.
Um feixe de sol penetrando o casulo, iluminando o mergulho das poeiras.

De joelhos, perante o invasor, perceberam o que faltava.
Não era um quarto; Não era meio.
Muito menos inteiro.

Encaixaram o olho no filete de luz, deixaram-se cegar.

2.7.14

Cedo

Nesta tarde confusa, confusão não houve.
Nestes dias corridos, não houve tempo, nem houve pressa;

Houve apenas a tarde
que nem tarde chegou. Veio no momento certo, no hoje.

A tarde de um dia longo, duma noite esquiva que deixa o desejo
e retimbra o conceito de saudade.

Houve poesia, Manoel de Barros,
imperceptivelmente Pessoa
e inevitavelmente Quintana.
Uma discreta e irrisória Janis Joplin na cabeça.

Não houve o que se ouve por ai.

Existiram os dois maiores poetas
escrevendo aquela tarde... durante aquela tarde.

Houve nós dois. Criativos incansáveis driblando a vida
Poetizando através de percepções, de escritas com o tato
de saliva muda com gosto de sangue.

Recriando a vida,
afirmando para nós mesmos
que fluir mesmo
é escorrer contra o fluxo

16.6.14

Junino

Cem pontos de encontro...
Gente que vai se esbarrando,
sotaques se misturando,
jeitos e trejeitos se fecundando.

Gente que vai nascendo, que vai morrendo
e gente que ninguém nem-se-sabe que já viveu.

Gente com uma vida todinha já morrida e que nunca eu ouvi falar. Arre! 
Às vezes penso que o mundo, pra mim, é meu zóio e meu zuvido

Pois
E em toda cidade que eu repousei
Toda estradinha que andarilhei
Em toda roda de fogueira que já fiquei
E em almoço de família que me fartei
Nunca ouvi falar de tais vidas , 
que já se passaram e que nem sei

E eu? Vivinho vivinho, mas só pra quem cruzei.
Acho que não tenho vida nas outras bandas desse vale
Afinal, nunca passei por lá.

Às vezes me dá uma inquietação
de fazer o possível
pra ser vivo em tudo quanto é lugar

E em todo lugar que eu for, estarei vivo
e darei vida a uma porção de gente boa que já encontrei por ai

Tem gente estranha 
e interessante neste mundinho grande 
que minhas pernas alcançam

Espalho com muito bom grado feitios de um bando de gente
Gente que me marcou a vida...
(e que agora são minhas por ter, comigo, compartilhado tempo)

Mas agora sei, que só d’eu viver
Deixo que elas vivam mais um bucado de tempo através de minhas histórias, de minhas lembranças 

Tem gente com suas tristezas ocultas e sorrisos estampados
Gente besta! Quanta gente besta.

Desse tipo de gente
não hei de contar um cisquinho de nada,
Nenhum caco de vida
E nenhuma faísca de aventura. Nada!

Gente tão ruim, que se fecha tanto
mas tanto dentro dos seus quereres e motivações
que parecem viverem sozinhas.

Gente que se foca em conquistar uma pré-morte confortável
Gente sem história, sei lá.
Gente que não vale a pena de se carregar no peito.

Chego mesmo a pensar que algumas ficções,
essas cantigas, ou estórias de livros 
e romances ou poesias,
são mais proveitosas de se propagar, de rememorar.

Não quero vida menos intensa
do que dessas que se pode escrever não.

Temos muito mais em nós
do que uma tinta e papel possam descrever. 

8.4.14

Dita às duras

A culpa é a sombra da altivez.
Manifestos involuntários entregam-lhe

Dita às duras, sem reflexão,
enquanto se permite
contentar-se com a felicidade. Resistindo à novidade.

Qual novidade
se a liberdade é ideia mais antiga que o domínio?

Ditavam as duras.
No silêncio dobrado, cochichos

Através das janelas
vozes esmagadas
com suas injustiças saturadas.

Quem se apoia no correto,
de maneira irrefletida e irrepreensível,
repreende.

E hoje, tudo já parece tão indiferente... mas nunca - nunca - estará distante
O tempo passa tão depressa

e ameaça se repetir com a mesma rapidez.

6.4.14

Adiantar

Alguns encontros me pausam.
Pausas que me avançam,
que abrem brechas para o eternizar da vida.

É bom estar assim.
Triste são aqueles que, ontem e hoje, 
nada puderam sentir além do mais do mesmo.
Tudo muda. Todos...

Não me canso facilmente. É preciso esgotar.
Poupar-se de sensações diversas para quê?
Aprendi como correr para 
intensificar meu andar vagaroso.

Tempo apressado que me sussurra nos ouvidos
Que a cada dia que ganho, perco-o.

Viver tudo ao mesmo tempo,
como um desespero silencioso,
é o mesmo que encher a boca de gostos
e não saborear nenhum deles.

É preciso pausar para apreciar,
a calma faz o instante penetrar no fundo do peito.

Quando estiver
no limiar da porta de saída, pronto pra minha despedida,
não terei memórias que destaquem 
tempo, 
fases ou idades.

Num todo absoluto,
Lembrarei 
dos momentos em que pude sentir a vida

30.3.14

Frase

Se viesse uma frase na cabeça 
escrevê-la-ia

Mas não consigo pensar.
Há muitas vozes que se aglomeram às minhas
e discerni-las já não é tarefa fácil.

Não escuto meus pensamentos.
Não entendo o que quero me dizer
e talvez não queira mesmo me ouvir.

Pelo menos agora, não o quero.
Evitando o que apenas se adia.

Terei que me dizer,
mas que o agora, por hora,
prolongue-se. Alargue...

Preparando-me
para mim mesmo

10.3.14

Fui apresentado à loucura.
E céus!!! Como ela é sã!
Como faz sentido.

Ontem

É impossível viver sem se entregar
Difícil se acautelar perante a um pedido intimamente inexplicável.
Como são intensas as questões inexplicáveis.

Cruel é afastar-se de tais anseios irrefletidos.
Esses são puros
Não há matemática ou alfabeto que os codifique. Há apenas o sentir
Por isso são lindos, límpidos e inocentes.

Então vem a calminha pequena, pronta pra me destroçar.
Pede com jeitinho que eu a aguarde
e não que eu a guarde.

Vence com os argumentos certos
e me convenço a me deixar.

Por vezes nos permitimos deixar-nos de verdade
Chegando a se entregar ao próprio abandono.
Acreditando que não me faço falta,
que o preenchimento qualquer é o mesmo que se completar.

Mas não me ausento de mim.  Por mais que eu tente.
Tomo-me encarando-me.
Pensando que não há nada mais EU
do que essas idéias.

Questões intimamente inexplicáveis. Inexplicavelmente íntimas.


Não sei me responder.

24.2.14

Minas Gerais

Café retinto, retirado dos altos vales.
Parto por cima,
escapo para o outro lado. Para lá
onde o parto do Pato
é tão relevante
quanto os nossos próprios passos.

Onde a natureza amarela,
verde, laranja e lilás,
cora as faces anis do mundo.
Que sorri-solto,
que sopra o vento como sua voz ofegante.

Saboreando o desencontro do inesperado.



(*) ESTE TEXTO É RESULTADO DE UM EXERCÍCIO PROPOSTO PELO GRUPO LITERÁRIO: ALMAVADOR

8.2.14

Provável

Meu excesso me traduz, meus exageros me entregam.
Sou presa fácil.

Mas essa tal facilidade é  curiosa
pois ela impõe obstáculos.

Quem fácil se dá
dificilmente se completará.

Eis a frase que martela em minha cabeça.

Quem fácil se dá
cedo se arrependerá.

Essa frase também vem.
Mas vem como segundo plano, como uma culpa tardia.

Quem fácil se dá,
pede, imperceptivelmente,
um cuidado complexo.

Facilidade é precipício-precipitado.
Qualquer deslize leva-nos ladeira abaixo.

E o que há quando se cai? O que se vê lá embaixo?





Reconstrução

30.1.14

O Monstro

O monstro que crio dentro de mim
avassala-me. 

Inventara-o por proteção,

Mas o maldito conspirou contra mim!

Aproveitando-se de meus bons momentos de distração,

Foi inofensivamente engrandecendo.

E em pouco tempo 

cogitava, em tom de ameaça, 
possibilidades remotas de tomar meu posto.

Sentiu fúria 

pela minha indiferença quanto ao seu enclausuramento.

Está feroz 

e as amarras já não podem mais com ele.

Sinto-o soltando-se.

Ouço seus gritos ressoando 
pelas paredes que o encarceraram 

Sinto-o chegando à superfície

para cumprir sua promessa,
para se alimentar do que mais deseja: Eu

E sem alarmes,

o banquete foi servido.

Tão repentino que pode ter acontecido 

as três da tarde de qualquer terça-feira.

Diminuo a cada mordida desferida por ele,

acompanhando uma inversa proporção de força e tamanho.

Eis que chego ao ponto 

d´eu me tornar meu próprio monstro,
enquanto fico aprisionado secretamente. 

Sendo impedido 

de ver a vida com meus antigos olhos.
Balançando entre minhas verdades.

Quais minhas fraquezas? 

Onde sempre encontrei vitalidade?
Pra onde foi o absurdo? 

Se mudo o tempo todo

Muda é minha definição.

Ponto! Não conseguirei ser nada. 

Embora, não haja nada que eu não possa ser. 

Balançando entre minhas verdades

Revezo as roupas que visto meu cérebro.

Nunca mais o vi nú.


18.11.13

Correnteza

Sou levado:
sem rumo, sem remo, sem força, obra ou manobra
que desfaça esse arrastar que vaivém.

Esse licor quase sem gosto
que na mesa, diante de mim, é posto
é abundante e vigoroso.
Dele bebo e me afundo.

Fujo pra fugir do mundo,
para que ele fuja de mim também.

Viramo-nos ao contrário
e partimos.

Mas o pior é que
mesmo saindo os dois juntinho e de fininho
é capaz de nos trombarmos ali, já na próxima esquina.

Êta mundo todo que foge pra dentro de mim.
Mundo besta!  Só se for...
Que confia a mim possibilidades de mudanças.

Voz do mundo que ecoa,
Voz clemente, afoita, aflita.
Mas a voz do meu quintal grita.
Voz manipuladora que abafa as concorrentes.

Tomo murros
por não definir o lado da esquiva.
Sou levado pelo irrequieto.
Vida apressada, regressiva.

Vida que bate e rebate no meu peito
Que me arrasta por fora,

E me desloca por dentro.

13.11.13

Turvo

Sinto vontade de escrever. De exprimir o sentimento que calo, 
para que não me pode mais, 
para que pare de me demolir.

Dessa vontade,

Saem palavras 
sobre o não compreender profundo do que se passou,
sobre o que passou, o porquê dos acontecimentos.

Saem palavras 

ralas e rasas. Mas não escassas 

Lindo é o conjunto de letras que se pode arranjar,
Lindo sentido incutido, arquitetado, desenho gravado.(?) 
Esboço gravado.

Mesmo com a excessiva quantidade de palavras,
de caminhos e possibilidades... 
São ideias que se traduzem através delas;
Lindas palavras, podem ser, 
mas ralas e rasas.

Notas desafinadas timbram o papel.

Palavras não podem descrever o todo, o que nos é desconhecido.
São inúteis contra a inóspita ideia-inexplicável.

Dessa forma, 
Saem palavras,
Saem dilemas.

Descrições de um estado momentâneo e passageiro
Podem soar perpétuos ao saírem de nossas cabeças.
As palavras com timbres tristes, pesados.

Poema que homenageia o estado passageiro 
que adoece a alma.

Gosto dos poetas que escrevem tristes. 

Gosto de suas palavras.
Há momentos em que me sinto neles.

Tenho um surpreendente alívio egoísta 

ao saber que não sou o único a provar desses sentimentos.

A tristeza é uma grande artista. 

Soube, que em breve,
fará uma nova exposição nos melhores museus da cidade. 

24.10.13

Caído em desuso

Chora o velho artista
Cansado de parecer completo.

É velho
Com racionamento de atividade agindo nos músculos;
Com vontades e coragens joviais
Mas com respiração rija e bronquitosa.

Anda por sua casa rodeada de lembranças
Acha na estante um vinil antigo 
Põe para rodar em sua vitrola de sensações

Aquelas lembranças soando através da bela melodia 
Linda e já tão distante.

Como estará aquela moça 
que se apegou às melodias tristes e distantes?

Um belo disco estala ressoando as notas do tempo 
em que a vida esteve presente e intensa.
Agora,
é apenas um passado marcante.

Chora o velho artista,
com sua criatividade impedida pelos músculos fracos e imprecisos.
Por sua frequente falta de inspiração.


Um vazio o preenche
Chora por não saber ao certo o que lhe falta.

Enxuga as lágrimas ao som de suas memórias.
Ao som que o levou a lugares, à momentos revisitados.

A música troca. É animada e o embala. 
Aquele antigo Jazz o faz abrir um sorriso sacana, malandro.

Onde estará aquela moça 
que se apegou aos momentos animados
e já tão distantes?

Uma breve e alegre nostalgia o toma.

Nostalgia alegre? Nostalgias são quase sempre tristes.
Faz parte de sua essência.

Chora o velho artista. Sorri.

Chora por ser velho,
Por estar novo e ser velho.

Chora pela comparação desleal. 
Por reviver na memória seus melhores momentos. 
Por saber que ainda vive 
e que, por ser velho, já deveria sentir-se completo.

Já não há mais tempo para acertos e para erros
Há somente tempo de sobra
para re-análises

1.10.13

Pensamentos da Despensa

A pressa, espessa,
Atirou-se violentamente contra a parede.

Escorreu pela fenda 
Que fora aberta pelos pensamentos aflitivos.
Penetrou na mais profunda calma espirituosa
Sacudiu!!

Casulos Rompidos

Metas e caminhos se apresentam, 
Por todos os lados, como raios luminosos. 
Claros e Infinitos. Que cegam. 
Que atordoam

O peito se estende; Alarga.
Defronta e confronta.

Escudo frágil que se atreve.

Encoraja a vitalidade 
A depositar mais fé sobre si mesma.

Uma vitalidade determinada.
Indispensável

6.9.13

Madrugada

Quando os sonhos me visitam
Deixando, amena, a saudade que sentia,
engolindo-me para dentro da própria cabeça
já é madrugada.

Quando os braços 
- num último resquício de plenitude dos sentidos, reúnem meus pedidos e procura-os -
esticam-se ao máximo. Acham o vazio.
Descobrem-se pouco e curtos 
Você longe.? Não.

Quando o sonho te inventa admitindo a sonolência
Já é madrugada

Não quero sonhar com lindos campos verdes, viagens.
Não quero criar sensações de ilusória alegria
se lá você não estiver

Mas o " quero" não exerce influência sobre os sonhos.
Ainda assim,
numa camada mais profunda que não se pode explicar,
sem intervenção da vontade, 
procuro-te.

E já é madrugada quando a distância, 
embora mantida, anula-se.

Vejo-te, ouço-te, falamo-nos.
Lindo encontro que se passa em minha cabeça. 
Nada longe. Está aqui.

Horas se derramam tranquilamente 
e passeios, encontros, são cinemas marcantes que se passam.
Noite que finalmente adormece.

O despertar...


Chega o despertar.


O despertar não se torna 
ruptura inconsolável ou sonho inatingível.
Faz-me um apressado 
para reviver o sonho de forma real.

A cada novo despertar
Recebo vida descansada 

Inédita vontade de tomar o que me é oferecido,
De romper a madrugada 
de vivê-la

de entregar-me e ser entregue na manhã seguinte
Acompanhado, unido 
até a última camada de meu pensamento, do que sou

13.8.13

Cigana

Minhas palmas estavam esticadas, nuas.  Quando percebi estava exposto.

- Consigo ler suas mãos! - Disse a cigana deslizando os dedos sobre os riscos da palma

Realmente as leu
E curiosamente entendeu
com uma absoluta clareza aquelas riscas, minhas, que nunca me disseram nada.

Desvendou meus trajetos não traçados,
mas não citou com quais trejeitos os realizaria.
Decifrou o futuro e entregou-me os problemas e soluções.

Convenceu-me pela sua inabalável convicção. Invejei-a.
Aceitei pagar-lhe moedas apenas para me punir por não possuir igual verdade.

Mas deixei-a sinceramente agradecido
Saí mais convicto. 
Tenho agora a certeza de não acreditar nas linhas das mãos.

6.8.13

Contínuo

Não percebia que prosseguia, mesmo parado.

Estava estacado, 
mas o tempo passava sob seus pés e puxava-o feito uma esteira rolante
Carregando-o, cada vez mais, para perto de si.

Mas o tempo é inalcançável

29.7.13

Atracção

Tenho muito mais em mim
que uma tinta e papel possam descrever.

Mergulhar no escuro de cabeça
E fazer isso do jeito que me vier como vontade
(e não do jeito que me vendem como prioridade)

Em alto-mar é preciso saber conduzir o barco.
E nessa minha condução, sinto-me um aprendiz de argonauta

Não me guio pela orientação dos sábios 
e minha bússola não indica os pólos

Minha religião não deposita fé em maniqueísmos 
e minhas dúvidas não sabem em quem confiar as respostas

Quero alçar as velas e atracar-me num lugar seguro.

27.6.13

Fermento Vencido

O mundo que vivo
Lugares que piso
Perigos que viso, que evito, que exito


Que existo... para que oras existo?

O mundo pode ser de escolhas, de persistência silenciosa

Podemos fazer escolhas, pois oportunidades não nos faltam
Não nos falta vida para fazê-las.


Talvez não falte...
Nem a coragem para vivê-la; Nem a preguiça para originar desinteresses


Nem o incômodo que nos chacoalhe o suficiente para agir e
Nem o conforto que nos faça, sem ansiedade, aguardar esse incômodo


Talvez não nos falte nada

A não ser a percepção que a vida é esta!
Esta de agora
que o fez ler este texto ao invés de ir ao mercado
que te manteve na internet ao invés de tirar um cochilo.


Mas sem condenações pelas escolhas feitas e já vividas

Apenas a pequena, simples e ordinária percepção de que as próximas escolhas
poderão mudar-nos profundamente.


Tenho acordado com uma vontade de mudar o mundo
E tenho dormido com uma inquietação maior que a do dia anterior

17.4.13

Artista

Um rapaz doido. Quase normal (se não fossem os últimos dias). Fazia pouco tempo que havia adquirido a loucura. Por isso ainda era quase doido (ou quase normal).

Adequava-se ao meio-fio capengo, andava com equilíbrio ébrio.
Não se importava para o lado que tombaria,
não se importava nem com a continuidade de seus passo sobre o meio-fio. 
Mas cairia,
sobre a loucura ou sobre os pés da normalidade.

Andava; Maneja o corpo contra o vento; Mantinha-se vivamente indeciso.

Formulava frases subjuntivas.

Se caísse para a doidice viveria diariamente o não aceitar da vida,
julgaria a normalidade insana
e seria julgado insano
por julgar insano o que todos afirmam ser normal.

Caiu.
A falta de equilibrio não permitiu o adiamento da queda.
Caiu e deitado permaneceu.
Mergulhou para o lado da loucura. Afundou. Aprofundou-se em seus pensamentos. Todos insanos. Saudavelmente insanos.

Voltou pra casa, despejou o pote de açucar na privada e deu descarga para adoçar os encanamentos. Abriu as portas do guarda-roupa e procurou o que não havia. Encontrou.

Foi ao encontro da parede e abraçou-a sem unir as mãos. Sentiu o abraço gelado, retríbuido.
Ferveu água e botou-a no freezer para calcular o tempo até o congelamento.

Sentou-se agitado,
assou o nariz na barra da calça jeans que usava e despiu-se das roupas, da vergonha.
Ligou a TV e transou com um programa de fofocas, gozou na cara da apresentadora e gargalhou.
Sentiu nojo dela, das notícias quase necessárias. Assim como ele, quase necessário.

Jogou a TV no chão e apalaudiu o curto espetáculo das faíscas. Dançou sobre os cacos de vidro e, com um deles, rasgou uma das mãos. Tingiu as paredes do quarto com o desenho de suas palmas.

Plantou bananeira; Chorou desconsolado; Deu cambalhotas no sofá; Regou as plantas da vizinha; Mijou no retrovisor d'um carro importado estacionado em sua rua;
Chamou a atenção.

Voltou, pegou o violão e compôs a música mais bela que ouvira nos últimos cem anos.
Sorriu completo. Estava batizado.
Sentiu-se um artista. Tornou-se um...

3.4.13

Dança do tempo

O tempo passa de maneiras diferentes.

Cada dia demonstra ter um andamento, um poema contido.
Parece haver variados estilos musicais que permeiam o dia.

Da valsa ao punk, oscilamos. Do soul à rockabilly, dançamos.
Pelas diversas nuances de sinfonia, sentimos-nos discretamente influenciados.

Dou sinais que repito o velho ditado: “dançar conforme a música”. Mas a percepção pode ser diferente. 

Nem sempre sabemos os passos da próxima dança. 


Guio-me instintivamente pelo ritmo;
as pernas frouxas tentam bater os pés conforme o andamento.
Tento não cair, aprender depressa.

Examino os hábeis dançarinos 

como se a observação pudesse ensinar-me algo. Todos eles, por cansaço ou falha na destreza, 
esfolaram-se por quedas causadas pelas danças anteriores. 

Mas parecem-me, agora, animados
por terem conseguido esquecer-se das quedas 

que ainda hoje sofro.

Aproveito ambos os tempos e contratempos que o Tempo me obriga.
Aproveito-os porque os aceito. Pois aproveitar pode ser apenas
utilizar-se da situação
por falta de oposição ou de opção.

Aproveitar / dançar conforme a música, nem sempre significa tirar proveito.
As vezes não me incomodo em ser aquele garoto tímido apoiado na parede enquanto rola o baile da escola.

Eis um desejo que gostaria que se realizasse! :
(um desejo insano e improvável)

A pausa do tempo.(No tempo)

Pausa sabática. Tempo estagnado para uma longa meditação.
Uma interrupção que mantivesse minha idade, conservasse minha saúde já gasta
e alterasse apenas minhas certezas e ideologias.

Refletiria sobre o que sou, 
sobre o que são os outros,

sobre o que somos quando juntos,
sobre mudanças e negligências, abandonos e permanências.
Talvez deixar de contar com algumas esperanças.
Aprender a ser, na medida certa, receptivo com a realidade, 

mais verossímil com meus devaneios
e, talvez, não cobrar tanto da vida. Talvez.

Tiraria conclusões e seguiria adiante mais confiante.
Alcançando uma maturidade velha quando a interrupção terminasse.

Não precisaria tornar-me velho para descobrir
o que deveria ter feito enquanto novo,
enquanto hoje.

Mas o tempo não permite tal privilégio.
Ele se estica e arrasta-me puxando pela perna. Não quero ir, mas vou.

Ele é forte, imenso, ininterrupto, intolerante e imaginário.
E eu... Eu fico
e passo
ao passo em que perco a contagem dos meus segundos. Fico e vou.

28.2.13

Pára Deus

A vontade do adeus! Adeus!
Ao Deus, digo foda-se. Duvido você existir!
Du-vi-do! - risos

Duvido você me anular, extinguir-me,expulsar-me da memória alheia
e fazer com que todos jamais saibam quem eu fui.
Consegue?
Há! 

Tem alguém surdo ai??? Ca-cete!
Esse cara não conversa com niguém que não tenha bata-e-ezquizofrenia?
Hei! Tô aqui!

Desafio você a fazer tudo isto !
Tudo isto enquanto Eu vivo! 

Fazer com que todos me esqueçam e que eu viva o meu próprio esquecimento – E em vida!

Ah! E não quero que me expurgue 
para dar de exemplos aos outros.. Isso é golpe baixo.
Isso não vale... Seja justo ao menos comigo...

Largue de ser covarde e de esperar que eu morra para me punir! 
Bundão!
Desafio-teagora! a demonstrar a força que parece ter. Que dizem que tu tens... UUUuuuU Que medinho...

Tem essa porra toda ai mesmo? 

E olha! 
Eu me entrego ... Veja só...
Eu me entrego como cobaia para que prove sua capacidade de ser mal, humano e vingativo

Vai me dizer que é de levar desaforo para casa??? - risos
Você é tão patético cara...
Tanto quanto Eu!

Provoco-te com indiferença, 
E nada me ocorreu enquanto gritava tudo isto

Se conseguires usar-me de exemplo para mim mesmo,
Sagrado para mim tú serás!

E enfim,
O meu fim trará,
Fará-me um seguidor teu. Finalmente de novo!

Criarei meu santuário,
Pregarei meu símbolo na cruz,
E condenarei-me a agradecer-lhe o tempo inteiro 

Pelo resto dos meus dias temerosos...

25.2.13

Soltamente

I.

Aqueles dias quentes sem refresco já incomodava.
A roupa colada no corpo, 
A cabeça ansiosa para antecipar o destino, 
O corpo caminhando abringando-se nas sombras.

Que calor era aquele que implorava por noite?
Qual a temperatura, que uma vez atingida,  fazia-o esquecer-se dos conflitos,
anuvia-lhe os planos, confundia-lhe as certezas, deixava-o mole? 
Nas ideias, apenas devaneios sobre alívios-corpóreos-imediatos.

Geleiras... estão quão distantes daqui?

Do Sol vinha, sentia vir, 
uma energia carregada de vigor que abriam os poros, 
uma intensidade que afogava o corpo com a própria água. Banhava-nos de nós mesmos.

Os rios; mares; águas; suores dos corpos;
Voavam as águas ao encontro do envolvente, ardente e atraente astro.

No alto o encontro pluvial. Chocavam-se sem impacto. 
Flutuavam discretas e invísiveis. 
Seu vapor pintava a tarde com uma única cor: 
Cinza-sereno

Profecia óbvia;
Já exausta de calor-lançado, despejou com ira a água absorvida,
devolvendo o que não lhe cabia mais. Chuva. 
Chora, ato quase triste pelo desapego. 

Levada pelos ventos. Permitiu por acalento desanuviar o céu.
Por detrás, risonhamente, ressurgia o astro. 

Naturalmente belo, somos natureza. Também
Contribuindo 
e recebendo semelhante parcela.


II.

O dia passa, mudam-se as cores.
Apresenta-se a noite manchando o dia com seu novo azul-claro-escurescendo

Noite clara, negra.
Por ali fica, horas-somada-de-horas que silenciam os corpos.
Com sua aúrea pesada, exige descanso.

Desta vez ele resistiu. Ficou a sós, mudo por respeito;
mudo para contemplá-la. 
Atento. Absorto. Distraído.

Do negro ao roxo. 
De súpeto: está roxo o céu?
De súbito?

Ressurgia o astro que paulatinamente manchava a noite, 
espreguiçando-se a cada raio de sol, 
o infindável ciclo degradê das cores.

Como criança espantada, encantada pela claridade, 
Ele reparava no brilho intenso que surgia, 
no velho astro que se erguia.

De suas retas sinuosas 
sentia a intensidade difusora.

Detendo a vista sobre o Sol, descansou o espírito. 
Por horas a olhá-lo, sem se desviar.

Alterou a mira dos olhos por incômodo,
por cansaço de testa franzida. 

Recebeu a força do clarão redondo.
Percebeu que mesmo sem olhá-lo 
Ali estava ele!

Encontrava-o em todos os lugares em que pairava a vista.
Até de olhos fechados, no escuro, enxergava-o.

Percebeu que o grande astro estava nele. Encrustrado em sua visão.
Era nítida a imagem do pequeno semblante, a redonda silhueta azul estava em tudo quanto era lugar.

A contemplação da grande estrela marcou-lhe a retina da memória.

O Sol se alongava pelo céu, 
sem cauda, sem rastros de seu movimento.

No topo, observando, amadurecendo, aquecendo. Irritava. 

A roupa colava no corpo, 
A cabeça ansiava para antecipar o destino.

Voltou para casa abringando-se nas sombras.

Começou um outro dia belo e sem refresco. Começou incomodado.