Não me contenho
Quando numa cena cabem mais cenas
não desvio nem deviro
A outra, que me chama, não terá chama, pois permaneço
por necessidade de expandir
buscando entender
onde se inicia o esgotamento
e onde se finda aquele infinito
Não sobrecarregue a palavra ator de interpretações que já conhece
Não se atreva a sequer carregá-la consigo
Deixa-a onde está
Não há jogo de simulação.
É menos que isso
É viver reinventando
15.1.15
Canto do Ator
23.12.14
Resposta
Drogados, todos somos.
Violentos pregadores da paz.
que nos questiona como Ser.
Para satisfazer essa vontade humana
Encha a boca com fumaça,
recomendo a verde ao invés da cinza,
encha com silêncio, com vida própria, com arte, com mais suspeitas que certezas.
E não abafe o som que estreita seus ouvidos.
Apesar da dificuldade, você perceberá simplicidades.
O mundo está mais para os errantes.
8.12.14
Tapete
O contrabaixo andante ditava o ritmo.
Minhas idéias eram palavras soltas
fazendo sons no pensamento.
Meus conflitos dançavam.
Toda ideia era calma.
Rasga! O Sopro do mestre. Deus?
Deu-se num Sax.
Rompendo no peito feito flecha com farpas.
Despregando as amarras. Evadindo o próprio corpo.
Olhar o nada e largar-me ocorreu numa ação dessabida. Aquele grave com som de madeira que abraçava a cintura, levava-me.
Aquela corrida de notas sopradas sem freio, sem pouso, lembrava-me tanto a vida.
Mas qual? Coltrane é de 60.
Estou novamente atrasado.
Mas o tempo necessário foi tomado, até o último gole.
Houve atraso, não desperdício do tempo.
Mas como explicar pra quem é regrado?
Pés descalços,
cigarro na mão esquerda repousada sobre o cinzeiro de plástico.
Costas no tapete, olhos para o teto.
Fumaça densa subindo em ésses.
Desejo de mato, de advinhar a chuva pelo cheiro, da noite extremamente longa, desejo do silêncio com cigarras,
desejo de um trago longo.
Ficou sem cigarros. Correu à padaria em frente para comprá-los. Lá,
distraiu-se rapidamente com uma televisão ligada, sorriu para a caixa e saiu. Esqueceu-se do que pensava, de concluir. Trocou de pensamento na volta pra casa. Desviou o dia.
4.12.14
Bate o pé na estrada
estrada bate
Arvoçoa fragmentos
de terra
misturados com lamentos
que enterra
Poeira à beira
enquanto bate
estrada parte
no pé
Tão pouco se dá conta
que é na ponta
que o deleite se encontra
Bate o pé na estrada
rumando o horizonte fugitivo
que é caminho, é onde se está
é o que passa, mas nunca laça
o destino ser esquivo
Estrada bate
Nada abatido
Pé no embate
A estrada bate
enquanto passa
e ainda há muito o que passar
No calcanhar sofrido
terra batida, apanhada
contando uma história, trajetória
qual curva eu não entrei,
onde corri onde parei
terra que acolhe o passo sem amortecer
estrada que recolhe o vasto para caber
já sofri já fiz sofrer
bate o pé estrada
Estrada bate
há sempre um empate em perder
24.8.14
Mundo palco mundo
11.8.14
Um Quarto
Está muito colorida de uma só cor.
Quadros e retratos não! Já não bastam...
Há uma séria carência nelas, percebe?
Não sei, mas essa ideia me parece um tanto óbvia.
Mas falta algo, concordo... Sabe o quê, exatamente?
Isso pode trazer um novo aspecto. Uma euforia diferente, ainda não experimentada.
Não era um quarto; Não era meio.
Muito menos inteiro.
2.7.14
Cedo
16.6.14
Junino
Gente que vai se esbarrando,
sotaques se misturando,
jeitos e trejeitos se fecundando.
Gente que vai nascendo, que vai morrendo
e gente que ninguém nem-se-sabe que já viveu.
Gente com uma vida todinha já morrida e que nunca eu ouvi falar. Arre!
Às vezes penso que o mundo, pra mim, é meu zóio e meu zuvido
Pois
E em toda cidade que eu repousei
Toda estradinha que andarilhei
Em toda roda de fogueira que já fiquei
E em almoço de família que me fartei
Nunca ouvi falar de tais vidas ,
que já se passaram e que nem sei
E eu? Vivinho vivinho, mas só pra quem cruzei.
Acho que não tenho vida nas outras bandas desse vale
Afinal, nunca passei por lá.
Às vezes me dá uma inquietação
de fazer o possível
pra ser vivo em tudo quanto é lugar
E em todo lugar que eu for, estarei vivo
e darei vida a uma porção de gente boa que já encontrei por ai
Tem gente estranha
e interessante neste mundinho grande
que minhas pernas alcançam
Espalho com muito bom grado feitios de um bando de gente
Gente que me marcou a vida...
(e que agora são minhas por ter, comigo, compartilhado tempo)
Mas agora sei, que só d’eu viver
Deixo que elas vivam mais um bucado de tempo através de minhas histórias, de minhas lembranças
Tem gente com suas tristezas ocultas e sorrisos estampados
Gente besta! Quanta gente besta.
Desse tipo de gente
não hei de contar um cisquinho de nada,
Nenhum caco de vida
E nenhuma faísca de aventura. Nada!
Gente tão ruim, que se fecha tanto
mas tanto dentro dos seus quereres e motivações
que parecem viverem sozinhas.
Gente que se foca em conquistar uma pré-morte confortável
Gente sem história, sei lá.
Gente que não vale a pena de se carregar no peito.
Chego mesmo a pensar que algumas ficções,
essas cantigas, ou estórias de livros
e romances ou poesias,
são mais proveitosas de se propagar, de rememorar.
Não quero vida menos intensa
do que dessas que se pode escrever não.
Temos muito mais em nós
do que uma tinta e papel possam descrever.
8.4.14
Dita às duras
6.4.14
Adiantar
Pausas que me avançam,
que abrem brechas para o eternizar da vida.
É bom estar assim.
Triste são aqueles que, ontem e hoje,
nada puderam sentir além do mais do mesmo.
Tudo muda. Todos...
Não me canso facilmente. É preciso esgotar.
Poupar-se de sensações diversas para quê?
Aprendi como correr para
intensificar meu andar vagaroso.
Tempo apressado que me sussurra nos ouvidos
Que a cada dia que ganho, perco-o.
Viver tudo ao mesmo tempo,
como um desespero silencioso,
é o mesmo que encher a boca de gostos
e não saborear nenhum deles.
É preciso pausar para apreciar,
a calma faz o instante penetrar no fundo do peito.
Quando estiver
no limiar da porta de saída, pronto pra minha despedida,
não terei memórias que destaquem
tempo,
fases ou idades.
Num todo absoluto,
Lembrarei
dos momentos em que pude sentir a vida
30.3.14
Frase
escrevê-la-ia
Mas não consigo pensar.
Há muitas vozes que se aglomeram às minhas
e discerni-las já não é tarefa fácil.
Não escuto meus pensamentos.
Não entendo o que quero me dizer
e talvez não queira mesmo me ouvir.
Pelo menos agora, não o quero.
Evitando o que apenas se adia.
Terei que me dizer,
mas que o agora, por hora,
prolongue-se. Alargue...
Preparando-me
para mim mesmo
10.3.14
Ontem
24.2.14
Minas Gerais
8.2.14
Provável
30.1.14
O Monstro
avassala-me.
Inventara-o por proteção,
Mas o maldito conspirou contra mim!
Aproveitando-se de meus bons momentos de distração,
Foi inofensivamente engrandecendo.
E em pouco tempo
cogitava, em tom de ameaça,
possibilidades remotas de tomar meu posto.
Sentiu fúria
pela minha indiferença quanto ao seu enclausuramento.
Está feroz
e as amarras já não podem mais com ele.
Sinto-o soltando-se.
Ouço seus gritos ressoando
pelas paredes que o encarceraram
Sinto-o chegando à superfície
para cumprir sua promessa,
para se alimentar do que mais deseja: Eu
E sem alarmes,
o banquete foi servido.
Tão repentino que pode ter acontecido
as três da tarde de qualquer terça-feira.
Diminuo a cada mordida desferida por ele,
acompanhando uma inversa proporção de força e tamanho.
Eis que chego ao ponto
d´eu me tornar meu próprio monstro,
enquanto fico aprisionado secretamente.
Sendo impedido
de ver a vida com meus antigos olhos.
Balançando entre minhas verdades.
Quais minhas fraquezas?
Onde sempre encontrei vitalidade?
Pra onde foi o absurdo?
Se mudo o tempo todo
Muda é minha definição.
Ponto! Não conseguirei ser nada.
Embora, não haja nada que eu não possa ser.
Balançando entre minhas verdades
Revezo as roupas que visto meu cérebro.
Nunca mais o vi nú.
18.11.13
Correnteza
13.11.13
Turvo
para que não me pode mais,
para que pare de me demolir.
Dessa vontade,
Saem palavras
sobre o não compreender profundo do que se passou,
sobre o que passou, o porquê dos acontecimentos.
Saem palavras
ralas e rasas. Mas não escassas
Lindo é o conjunto de letras que se pode arranjar,
São ideias que se traduzem através delas;
mas ralas e rasas.
Saem palavras,
Saem dilemas.
Descrições de um estado momentâneo e passageiro
As palavras com timbres tristes, pesados.
que adoece a alma.
Gosto dos poetas que escrevem tristes.
Gosto de suas palavras.
Há momentos em que me sinto neles.
Tenho um surpreendente alívio egoísta
ao saber que não sou o único a provar desses sentimentos.
A tristeza é uma grande artista.
Soube, que em breve,
fará uma nova exposição nos melhores museus da cidade.
24.10.13
Caído em desuso
Por reviver na memória seus melhores momentos.
1.10.13
Pensamentos da Despensa
Atirou-se violentamente contra a parede.
Escorreu pela fenda
Que fora aberta pelos pensamentos aflitivos.
Penetrou na mais profunda calma espirituosa
Sacudiu!!
Casulos Rompidos
Metas e caminhos se apresentam,
Por todos os lados, como raios luminosos.
Claros e Infinitos. Que cegam.
Que atordoam
O peito se estende; Alarga.
Defronta e confronta.
Escudo frágil que se atreve.
Encoraja a vitalidade
A depositar mais fé sobre si mesma.
Uma vitalidade determinada.
Indispensável
6.9.13
Madrugada
- num último resquício de plenitude dos sentidos, reúnem meus pedidos e procura-os -
Você longe.? Não.
Mas o " quero" não exerce influência sobre os sonhos.
Ainda assim,
numa camada mais profunda que não se pode explicar,
sem intervenção da vontade,
procuro-te.
embora mantida, anula-se.
Vejo-te, ouço-te, falamo-nos.
Nada longe. Está aqui.
Horas se derramam tranquilamente
e passeios, encontros, são cinemas marcantes que se passam.
Noite que finalmente adormece.
O despertar...
Chega o despertar.
O despertar não se torna
ruptura inconsolável ou sonho inatingível.
Faz-me um apressado
para reviver o sonho de forma real.
A cada novo despertar
Recebo vida descansada
Inédita vontade de tomar o que me é oferecido,
De romper a madrugada
de vivê-la
de entregar-me e ser entregue na manhã seguinte
Acompanhado, unido
até a última camada de meu pensamento, do que sou
13.8.13
Cigana
- Consigo ler suas mãos! - Disse a cigana deslizando os dedos sobre os riscos da palma
Realmente as leu
6.8.13
Contínuo
Estava estacado,
29.7.13
Atracção
27.6.13
Fermento Vencido
Lugares que piso
Perigos que viso, que evito, que exito
Que existo... para que oras existo?
O mundo pode ser de escolhas, de persistência silenciosa
Podemos fazer escolhas, pois oportunidades não nos faltam
Não nos falta vida para fazê-las.
Talvez não falte...
Nem a coragem para vivê-la; Nem a preguiça para originar desinteresses
Nem o incômodo que nos chacoalhe o suficiente para agir e
Nem o conforto que nos faça, sem ansiedade, aguardar esse incômodo
Talvez não nos falte nada
A não ser a percepção que a vida é esta!
Esta de agora
que o fez ler este texto ao invés de ir ao mercado
que te manteve na internet ao invés de tirar um cochilo.
Mas sem condenações pelas escolhas feitas e já vividas
Apenas a pequena, simples e ordinária percepção de que as próximas escolhas
poderão mudar-nos profundamente.
Tenho acordado com uma vontade de mudar o mundo
E tenho dormido com uma inquietação maior que a do dia anterior