30.7.12

Qual a palavra?

Se souber, estará livre.

Todas escondem algo

Todos se escondem
Exceto eu e meu macaco; Meu interno confidente.
Despejo-lhe minhas amadas - Que querem ser amantes, mas não sabem dançar
Aborto todos os sacrifícios que, se somados, tornam-se a maioria
Incluo minhas desistências e excessos

Se é que excedi...
Sexy Sadie...

Faz-me esquecer que nasci
Quando está presente transforma o agora em desconhecido
Cria um novo tempo verbal

Surpreende-me:
Apesar d’ eu já conseguir prever seus próximos movimentos
Você consegue! Apenas você... ainda... consegue?

E o fim que nos preservou de um possível desgaste
Não induz ao resgate do que poderíamos ter sido
Sim! Um encerramento saudoso. Sem lástimas

Mãos feitas... laçadas... lindas unhas sem vaidades coloridas

Corpos nus a descansar juntos.
Deitados

Feito dois enfermos a espera de uma doença que justifique a deliciosa indisposição que nos tomara

Mas não me sinto completamente seguro
Quero perder o medo de lhe repetir

Embora as vezes eu ainda o sinta
Apesar de eu ainda evitar levantar descalço da cama

Os pés gelados sem tua repreensão, que falta me fazem?
Nenhuma! Já preencheram – e sem lacunas! - os momentos findados
E minhas atuais memórias são maiores que todos os passados

Lembranças. Recordo ações:
Apenas o conforto,
sua despretensiosa respiração no meu pescoço
e o teto mal iluminado.

Apenas Nós


e o mundo que nos esperava do lado de fora.


24.7.12

Murmúrio

E quando voltou não era mais o mesmo

Aquela barba dava-lhe aspectos rudes
O olhar sereno e triste deram-lhe o que todos evitaram ver
Tentou preservar-se de suas lembranças, mas elas o puniram

Voltou; E arrastar-se até aqui fora pungente
Dor que aumenta infimamente a cada tomada de ar
Mas tal inofensividade se demonstrou avassaladora
Ao ponto de espremer a consciência
na luta por espaço. Não cabem mais em si

A pele amarelada roubava-lhe a aparência saudável
As deformidades na face exprimiam-lhe chagas
Carregava consigo todas as curas descobertas
Conflitos que o regeneram
São lhe exibidos em forma de alarme

A voz rouca soa feito um rugido
Rouquidão causada por excessos de silêncio
Acúmulo de palavras nas cordas vocais
Palavras com prazo vencido

Som calcificado após tantos não-ditos
Expressa-se agora em tom inaudível

Mas suas palavras ainda fortes
São ouvidas com estranha cordialidade
E com um profundo respeito por tudo aquilo
que não se consegue mais escutar

17.7.12

Cinza

Cinza é a cor do dia que não acontece,
Que esfria, não prospera, não vinga
Não atinge, não há procura

Dia sem ganância, sem nuância.

Dia estancado
Como cinzas num cinzeiro
De uma vida fumada e que já se apagou.

12.7.12

Pessoas

Coisas que ficam.
Os segundos que se compartilham
Podem conter semelhanças
Mas nunca os mesmos pontos sentidos

Coisas com ar de vitalidade e com uma arrogante pretensão de se fixarem eternamente.
A insistência do tempo leva tudo ao desvínculo
Destronando os amores absolutistas

Eu possuo a mudança
Posso-me e apoço-me por isso

As mudanças em seus vasilhames
Distribuem-se nas prateleiras
Quero inverter o que está ao meu alcance
Mas os potes guardados embaixo
Referem-se apenas a caminhos e não a pontos de chegada

Mas a cada resposta dada sem a certeza necessária
A cada situação em que me conformo,
                                em que me adapto,
A prateleira eleva-se

Obrigo-me a vestir asas
Toco os potes mais altos

Leio em alguns rótulos:
Questões aprofundadas e sem respostas
Liberdades algemadas e almejadas
Frases impacientes e impactantes

No labirinto de mim, achei-a antes de me encontrar.

Contida em regiões cutâneas

2.7.12

Ponto

A luz que entrava fazia das cortinas claras quase transparentes.
Ao sentar-se na cama percebeu, como paisagem disponível, a ponta de um telhado vizinho e um imenso céu num tom azul-absoluto, mas abdicou de tal vista quando Beltia adentrou e compartilhou espaço no colchão.
 - Não te expulsei da cama. Sente aqui! – disse ela
Eu, ainda no chão, observava calado os dois móveis rústicos e lustrados que completavam o pequeno quarto em que estávamos. Sentou-se à minha frente e examinou-me em silêncio.
- Não gostou? – Perguntou-me
- Do quê?
- Do meu quarto. Já que olhou cada canto deste recanto por que não me diz o que achou?
- Como posso dizer?... É claro que gostei... Mas... o achei um tanto pequeno, sabe?
- Pequeno para quê? Nós dois não cabemos nele?
- Sim... Mas não foi isto...
- E além de nós – interrompeu-me - também não está aqui o que sentimos? E os sentimentos que mal cabem em nossos corpos e que ainda assim é abrigado por este pequeno quarto? Onde também coube o que transbordou hoje e o que nos escapou dias atrás...
- Neste quarto cabem vidas inteiras. Tem razão... ele é imenso.

- E você? Gostou? - Perguntei
- Adorei!
- Adorou o quê? Não sabe nem ao que me referi...
- E nem pretendo saber... Adoro a vida e tudo o que nela está.
- Que bom! Então já se encontrou?
- Não, mas sempre que procuro me acho um pouco.
- Dentro de dois anos estará completa!
- Se me ajudar, alcanço o Todo em dois dias.
- Aceito! Mostro-te o caminho que conheço e depois vamos à minha procura...
- Depois, depois... Vamos despistar o depois e interrogar o hoje jogando a luz mais forte na cara...
- O que acha que nos revelará?
- Não importa Homem! Vamos acreditar em qualquer resposta bem elaborada. Verdades acreditadas têm o mesmo peso das Verdades reais.
- Então acreditaremos por racionamento de esforços? Por não aprofundar o questionar?
- Não! Acreditaremos por ansiedade de respostas. Qualquer uma serve, já te disse.
- Pois bem, se são todas aceitáveis só me resta acreditar nesta conversa.
- Só te resta me acompanhar. Todo fim é um ponto de partida e este é o seu...
- O meu fim?
- Não Homem! O seu ponto de vista da história.

28.6.12

Rotas

Em todas as vias
Olhares que não procuram.

Quando indiscretos
Ateiam a capacidade alheia.
Quando correspondem
Respondem através de perguntas

Velozes por antecipar arranque
Em busca da vantagem

Esmero oculto nas ostentações
Labutas requeridas por de trás de cada pensamento cimentado

Mesmo sem te ver
Te vigio

A distância que não afasta,
Em todas havia.

A beleza desejada nas faces,
Em todas a via.

31.5.12

Desvario

Cansado de si, caminhava sem destino há algumas horas e qualquer momento inesperado o faria bem. Suas conclusões mais que óbvias o entediavam. 

Suas pernas alargavam os passos. Ingênuas, confundiam pressa com alívio. De nada adiantaria encurtar as distâncias. Percebeu dar passos em vão. Simulou ter destino adentrando na taberna que acenava convidativa à frente. Perfurou rápido, sentou-se no fundo e pediu o que beber.

Seguia sentado, mas de pé em seus pensamentos. Enxergava passos ao ouvir escombros. Esperava; Jamais parado. Movia-se de um lado para outro em sua caixa cefálica.

Ergueu o braço e apontou para o copo vazio. Ordenou que lhe renovassem a dose.

Cabeça baixa; Olhar curvo. Recostava-se de modo inclinado, encostando levemente as costas na ponta da cadeira. Seus pés poderiam tocar na parede se o seu corpo escorregasse. Manteve-se quasinérte. Executava poucos movimentos limitando-se à apatia. Suas ações no intrecéfalo já o agitavam o suficiente. Fatigavam-no em demasia.

Telas de pincel batido fabricavam imagens que se presencia. Preenchiam suas recordações com cores alegres, que borram os quadros ainda brancos. Um contentamento falso que zombava da sua realidade. As memórias de tempos passados confundiam-no. Não sabia se fora feliz, mas sabia que nunca fora como estava. A felicidade irônica das cores fazia-o espiar a vida em tons de cinza.


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Jamais parado. Saia da inércia apenas para ingerir mais álcool. Seu paladar não mais examinava a confortante bebida amadeirada que o distraiu a tarde inteira. Mal lembrava o que havia pedido inicialmente. Mas pouco importava. Pedia pares delas a fim de parar em número ímpar.


O inferno que se aproximava não vinha de baixo e tão pouco esquentava; Não o punia e nem o influenciava a nada. Seria tudo escolha sua? Mas então, de onde vinha essa corrente que direcionava o fluxo de elétrons? Não se sabia, não se via e nem se poderia ver. Ondas de rádio atravessavam sua cabeça. De súbito lembrou-se de uma música. Não gostava dela.

Olhar baixo; Cabeça curva. Feito um homem tímido e não-curioso interrogava a parede a sua frente. Entre tantos, intrigou-se: Descobriu um pequeno ponto da ruidosa parede que tremulava. Observava o agitado buraco dançar no compasso da música ruim que estava em sua cabeça. Queria se amigar com a lacuna. Sentiu-se privilegiado - e exclusivo! - por perceber o simpático dançarino.


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Sem levantar o rosto e sem ao menos mover os olhos, percebeu que era possível enxergar todos ao seu redor. Obliquo, tentou observar sem parecer um observador.

Permaneceu horas sentado e voltado à parede. Salvo o rapaz que lhe renovava as doses com frequência, ninguém o notava. Passar despercebido estava cada vez mais frequente. Esquecera-se do que é ser lembrado, da sensação do que é habitar uma cefalia alheia, do que é caber na memória dos outros.

O ponto se exibia para ele. Felicitava-o. Ilusões nos oferecem o que queremos. Sentimos o seu gosto inexistente. Preenche-nos momentaneamente com suficiência. O ponto dançarino o contentava. Não sabia se ele de fato existia, se outros poderiam enxerga-lo, mas era certo que o sentia. O ponto deslizava, subia, contornava e sumia!

Refletia sobre aqueles ousados movimentos. Seriam frutos de alguma necessidade? Não importava. Sentia o ponto. Podia vê-lo. Sua visão aos poucos desfocava pelo foco no pensamento. Desfocado. Desnítidez.


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Ouvia algo ao fundo se aproximar. Era o fundo que se avolumava. Som ambiente ganhando espaço. Copos recolocados no balcão e barulhos de conversas desviaram sua atenção.

Passou a ouvir a felicidade que ria e falava alto. Gargalhadas inesperadas que repercutiam e reverberavam em suas paredes internas. Ele não era assim, não era como eles. Há tempos que não gargalhava, embora, às vezes, tivesse motivo para rir. Acreditava ser o humor uma inocente alienação.

Sem perceber, passou a se comparar com todos aqueles que observava. Roupas; gestos; exageros; desgraças; flertes; sorrisos. Ressaltava os pormenores. Quase nada lhe escapava.

Seu pensamento ia longe, passeava para lugar nenhum, viajava entre coisas e lembranças. Parecia enxergar entre frechas e por vezes ausentava-se. A cada retorno a si um incômodo aumentava. Sentiu-se enjoado com aqueles estranhos de conversas facilmente decifráveis. Três frases seriam o bastante para descobrir o assunto, o teor e o provável desfecho. Criava asco por todos e repreendia-se por compará-los consigo e punia-se mais ao notar semelhanças. Esgotou-se de desgosto.

Experimentava um ar de desimportância dos outros para com ele, para com as suas observações. Este sentimento que percebia e aumentava não partia dele e nem dos outros. Essa atmosfera comparativa coexiste em todos os cantos: Nas ruínas da parede que observava, dentro da fenda que mal cabia um guardanapo, dentro da taberna, da bebida, dos corpos. Dentro do mundo; Dentro de tudo, pois a atmosfera comparativa que respiramos mora dentro dos olhos de quem observa. Um confronto involuntario.

Jogou uma quantia de dinheiro na mesa e saiu do bar para adentrar em seu habitual mundo.




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Não havia aonde chegar, méritos para recordar e nem algo para alcançar. Nada via em suas vias. Para onde iria desta vez? Sem caminho, traços ou destinos: condenava-se. Para evitar ser óbvio, praticava reprimir suas vontades mais naturais.

Percorreu sua falta de caminho esbarrando no meio-fio. A calçada afunilava, tornava-se estreita apesar da concentração. Fraquejou o passo, ameaçou mergulhos e tombava penso. Escorou-se em paredes que se esquivavam e equilibrou-se beirando o ridículo.

Seu desbúndio para julgamentos era imenso e engrandecia. Pecava ao tentar encontrar-se em caminhos já traçados. Seu erro era pensar ter algum direito sobre as coisas. Optou: Sem ganância, alvos ou desejos seria impossível acumular derrotas.  Sua vida era agora despretensiosa.


21.5.12

O Peso da Palavra

Som súbito. Acordou
O dia chegara cedo
Sem dúvidas: Estava feliz

Preparava-se para o assassinato.
Aniquilaria - de vez! - todo o enfado
Arrematou-se de entusiasmo.

Banhou-se sem pressa.
Havia tempo até chegar o momento.

Ajeitou a casa ao som de Caetano
Sem sacrifícios.

Foiçou ervas-daninhas
Admitiu tirar proveito do verde,
Enfileirou o pó acumulado
E exagerou na faxina.

Todo cansaço seria recompensado.

O dia já perdia 
suas cores.
Aproximava-se do desejo.

Mas ao partir
Houve o que se ouve do inesperado:
Palavra Pesada.

Esforço tolo e em vão
Perante ao peso insuportável.

Ainda dentro se via:
Chuva lá fora.

Notou sua falha: falta de hipóteses.
Não supôs se molhar.

Expectativas frustradas
Têm o seu tom humorado

Mas são piadas
em que as risadas
soam atrasadas

Apesar da enorme graça 
Nem todos riem juntos.

8.5.12

Arena

Com os combatentes a postos, o prêmio desejado aguarda o vitorioso.
Aquele a quem realmente mereça o desfrute.
A reconquista do mérito é o que importa.
O passado já passou. Esquecido.

A disputa desnivela, exige esforço
Requer platéia e condecoração

O troféu que espera pelo triunfo
Faz-se ansioso por sua conquista

Somos todos concorrentes
Temos todos o potencial de superar o próximo
Ultrapassar alguém é engrandecer-se

Somos todos competidores?
Não tenho competência para competir.
Ao menor sinal de luta
Renuncio à ofensividade

O oponente ri, tira sarro, esmiuça
Faz-me parecer ridículo perante aos espectadores

Figurar maior que a realidade.
Elevar-se desbancando a glória alheia
Pedante, almeja ser declarado deus
Mas ao sentir o primeiro golpe volta a si

Sua força bruta
Resulta de uma luta
Que reluta e oculta
Sua insiginificante pretensão:
Tornar-se importante

Viver perdeu prestígio
Ser reconhecido é o que mais se valoriza

Superioridade é questão de ponto de vista

Se quiser, faça o teste:
discorde dos teus deuses
e então descobrirá seu verdadeiro tamanho

1.5.12

Entre conversas

Gotejos saíram de época.
Não se pode mais plantá-los.
Entramos em tempo de enxurradas e tempestades.

Chuvas fortes e ventosas serão venturosas para os amantes de mistérios.
Forte magnetismo têm os eventos que não se explicam.
Atração.

Natureza das grandes quedas d´aguas. Natureza das grandes quedas em si.

Possibilidades que giram em nossas cabeças. Vãs tentativas de decifrar mutuamente o instante em que todos participam.
Mas como eleger uma verdade em meio às indecisões?

Água fria; espinho no pé; onda que amortece nas costas.
Castigos de uma natureza cruel, embora inocente; quase inconsciente; mas nunca inofensiva.

Entre conversas, pausas aproveitam seu momento.
Revelam o que palavras não arriscam
E nos submetem à verdade omitida em nós

Omissão é silêncio
Mas um silêncio que fala por si
Prestes a se entregar

22.4.12

PRESENÇA

Enquanto os meus dias passam sem a minha presença
Sinto um cancerígeno desperdício

Qual o preenchimento advindo dos dias que decorrem sem nosso consentimento?

Horas antecedem horas,
                        Incessantes e aglutinadas
Hora encerradas exigem a chegada da próxima
                        Desagregada. Intacta.

A pressa das horas que se aproximam
Será sempre maior que a das recém-resumidas

As horas se apressam, não respeitam a linearidade do tempo
Ora arrastadas ora escorregadias
Horas impulsivas horas desavindas

que nunca pausam,
nem quando se é preciso
apreciar o momento

16.4.12

ESVOAÇA


Ver depois
Ouvir músicas ouvidas.                                                Acender todos os momentos passados que presenciaram o tocar daquelas músicas.
Todos os momentos!
Como são enormes Todos os momentos.
Como mesurar ou definir o peso dos pretéritos–antes/já-presentes?

Conversas, Despretensões, Trocas.
A ótima e confusa impressão causada pelo compartilhar de conclusões
Difusa! Semifusas descrevem o contar do tempo
Momentos segundários que parecem dias inteiros
Momentos; lamentos.
                   A estabilidade dos dias que não acontecem.

Escavar adentro
Perfurar a mais sensível das estabilidades para provocar-se
Necessidade de botar-se em questão
Interrogar a postura, os desprazeres.

Desvalorizar as certezas e                           obedecer ao desconforto
Colocar                                       em xeque                  
                  o mérito colhido                            através do reconhecimento

Todos os ventos esvoaçantes que nos interessaram

Milhares de vezes em que dominamos a situação
E em outras melhores que prevaleceram o improviso
Ambas recompensantes.      e      Co-pensantes.

Observar ideias
não antes-percebidas      será sempre surpreendente

26.3.12

PARTE I – MEMÓRIA BRUTA

A vida bruta.
A soma de todos os pormenores não é armazenada pela memória.
Portanto a vida bruta não é igual a memória bruta.

O nosso natural amadurecimento é prova
De que não esquecemos de tudo que vivemos.
Mas a memória reduz as dimensões da vida.
As horas idênticas se aglutinam
E as rotinas passam a ter, para a memória, a duração de um único e longo dia.

Uma redução cabível à nossa capacidade, uma adaptação às nossas limitações.

Não há esquecimento por nossa parte
Apenas há-a-não necessidade de lembrarmos de todas as repetições
E/ou uma falta de habilidade para distiguirmos horas tão semelhantes.

Por isso damos importância aos pormenores.
Os detalhes ganham enorme encantamento.

Não lembrar da união cronológica dos nossos segundos até a idade atual é doença que traz vida.

Apesar da intensidade do não-vivido
Sabemos que haverá um descarte natural da maioria dos próximos momentos
Por conseguinte, valorizamos o que ainda não se viveu.

As próximas horas serão mais importantes do que os zilhares de segundos que já consumimos.

Tento compreender o que foi retido para consumir o inabitável.

20.3.12

Capricho

Retroceda à criação ,
Conserve a perturbação e transforme-a em artes depreciativas.

Melhor não ler livros antes de escrever
Ou ouvir álbuns dum mesmo estilo antes de compor
Semelhanças óbvias serão expostas
Melhor é não se envolver para redigir
Pra não reencontrar o que já não se lembra

Para seduzir ao engano é preciso dissimular
Tentativa vã de não se traduzir as ideias,
de não transluzir o que se pensava ao escrever esta palavra(exatamente esta!)
Também é válida a falta de pensar que há-na-não correção das frases tortuosas

Enganar o leitor mais do que enganar a si mesmo
Assim mesmo! Dizer nada sobre o nada.

Sobre a falta de intenções ortográficas
Contra a inspiração que se esconde
e que confronta
contra
o ânimo em sair do ócio

Apenas ceder ao capricho de querer
Encher este espaço de letras.

4.3.12

A Ventura

Desde o início sabíamos da entropia
Por mais prazer que uma desordem traz
Sempre causa estragos quando se acaba

Pelaventura que tornavam os segundos mais extensos
Pelasensações insólitas trazidas pelas madrugadas
Era capaz de afirmar ter sido apresentado à Felicidade
Sentia seu afastamento tornar o que era normal em horas saudosas

Mas a distância,
Que antes eram promessas de um breve reencontro,
Agora me despedaçam com violência

Pelalegria que tornava o todo irreal
Pelosentimentos que desorientavam
Pela culpa em me sentir mais feliz que os arredores
Era capaz de supor memórias que não morreriam

Abrir mão de bons momentos
É também perder os parâmetros
Pois a noção de felicidade
Faz o cotidiano parecer monótono, vazio, triste
Mas sem as comparações a realidade torna-se insustentavelmente leve

Está ai o ponto-de-partida de uma fuga:

Não conviver com o melhor
Faz a angústia perder o peso que teve

27.2.12

Traição

Dominar o impulso e controlar os batimentos são coisas possíveis?
Domar o instinto e postergar questões  são coisas  passíveis?


Desviar a elocução àlguém de menor importância é um recurso dos fracos.


Assim como se engrandecem as enfermidades após a consciência do diagnóstico,

aceitar a fragilidade sentida é debilitar-se mais.


Uma possibilidade tangente incomoda, mas não deveria.


Existem alguns valores morais que de tão intrínsecos e hereditários

São confundidos com sucessões genéticas.

Parecem contidos no espírito, nas vísceras.

Abdicar deles e propor que a estrutura se altere é ousado e revolucionário.


Possuimos o direito de manifestar um desejo tirano?

Fujo das exigências que o corpo teima em pedir.

Tiranos querem ser únicos.

Extinguem a liberdade a fim de ganharem maior influência

E acabam por obter repugnância e um inevitável destronamento


As possibilidades que machucam simplesmente ao imaginá-las

Trazem consigo uma agonia não-imaginária, real;

Que pode ser sentida, ouvida e expressada.

Mas optamos em remoê-las

Por serem patéticas a ponto de tornarem suscetíveis o escárnio e o ridicúlo.


Assisto calado,

Pois as palavras transbordam.

Entende-se muito mais do que realmente se tentou dizer.


Lutar contra os valores-viscerais é mutilar-se.

Expulsar idéias é tarefa árdua.

É preciso revirar o que existe entre as entranhas.

Mas revolucionar é renovar através de danos.

22.2.12

Reflexão

Se quiseres, concordarei com sua insistência
De querer convencer-me da beleza de meus olhos
Mas essa beleza que enxergas, explica-se:
Quando me vê, meus olhos tornam-se belos por conterem a sua beleza refletida neles
A beleza que existe em mim
Só existe perto de você

Compartilhamos uma euforia dissimulada
Ocultamos o que sentimos e negamos a momentânea verdade
Evitamos novos passos
Pelo medo de termos caminhados tão depressa até agora

Os pés se arrastam feito dança.
Percorrem o caminho sem demonstrar pressa,
Apesar da impaciência para cruzarmos juntos a linha do que aparenta ser inevitável
E da ansiedade por lutar contra as consequências que não foram previstas por nós

A vida que se segue com as rotinas desgastantes
E que nos ocupam com infinitas bobagens
Tenta tornar-se importante
Perante ao segredo que guardamos dias atrás

A força para resistir vêm das promessas que fizemos
Prometimentos de que a vida será alegre, divertida e recheada por olhos que se cruzam e pousam, 
que refletem a imagem da companhia desejada
E que se fecham apenas por êxtase.

17.2.12

Rua Tereza, nº 1023

Acordei taquicárdico, assustado. Sabia que fora apenas um pesadelo, mas esse autoconhecimento não me confortou.  Não queria correr o risco de voltar a ter aquele sonho. Desisiti de dormir.

Aos poucos o pouco da claridade que invadia o ambiente ajudava-me a entender onde eu acordara. Meu raciocínio estava lento, minha cabeça doia. Mesmo sem muita nitidez por conta da sonolência, identifiquei alguns móveis: Não eram os meus.

O sol forte abafava. O cobertor - que apesar de cobrir apenas as minhas pernas – passou a me incomodar. Senti uma mão gelada segurando a minha. Virei-me para confirmar quem dormia ao meu lado, embora, pelo ato de apertar as mãos, eu já soubesse: dormia ao lado de Tereza. Dizia só conseguir dormir se nossas mãos estivessem entrelaçadas, que não conseguia ser diferente. Aquilo passava certo conforto a ela e, por isso, não negava, mesmo que me causasse um desconforto algumas vezes. Quando livrava minha mão da dela, apesar de todo cuidado sorrateiro nesse desvínculo, ela não tardava a perceber o vazio nas palmas e, quase sonâmbula, buscava-as novamente. Sinto que Tereza as procurava como uma forma discreta de verificar se já eu havia ido embora.

Pensar nisso incomodou-me e decidi que já era hora de partir. Sem soltar sua mão, mudei minha posição na cama como se ainda estivesse dormindo, de modo a ficar de costas para ela. Lentamente desentrelaçei os dedos e sentei na cama sem causar barulhos.

Num silêncio quase absoluto, levantei e procurei minhas roupas. Vesti a bermuda e busquei a camiseta que estava jogada do outro lado do quarto. Coloquei-a sobre o ombro e, mantendo o silêncio, destranquei a porta. “Minha carteira!” - pensei. Procurei-a em todas as primeiras gavetas de todos os móveis do quarto; Sem sucesso. Costumo guardá-la em lugares fáceis e práticos de se guardar e, portanto, deveria achá-la com a mesma facilidade, mas isso nunca acontece. O difícil é realizar buscas em silêncio: o sono de Tereza é sensível ao fechar de gavetas.

- Aonde você vai? – Disse erguendo o pescoço para conseguir me ver
- Comprar pão. Viu a minha carteira?
- Dentro da minha bolsa. Pode pegar...

Voltei para beijá-la e sai sem mais dizer.

Existe uma praça no final da Rua de Tereza. Desci a ladeira e sentei em um dos poucos bancos cobertos por sombras . As árvores cantavam por assovios. A praça e as ruas estavam vazias e os assovios dos homens ainda não haviam excedido o dos pássaros. Provavelmente ainda era cedo.

Resolvi descansar um pouco no banco em que já estava sentado. Permanecer. Aproveitar o cheiro de mato que a  gelada brisa trazia para organizar os pensamentos. Fiquei ali um bom tempo antes de decidir ir pra minha casa. 

Refletia. Pensava em Tereza, nas coisas que me faziam esquecê-la; No lindo canto vindo dos galhos e como se tornavam ínfimos perto do canto intenso e altivo dos homens, no incômodo e depressão que provavelmente sentiam os pássaros que, por serem melhores músicos, jamais compreenderão a simplicidade das notas ruidosas que saem dos motores e construções humanas.

Percebi, à minha frente, mas do outro lado da praça, uma velha senhora sentada e recostada sob as portas fechadas de um estabelecimento qualquer. 
Espreguiçava-se; Esticava as pernas; Comprimia o dia.

Interessei-me por ela. Intrigou-me. Observá-la naquela manhã seria um ótimo passatempo.

Reparei que não tinha os olhos tristes ou cabisbaixos, pareciam até ter uma certa soberba ou desprezo ao que lhe era alheio. Seu rosto demonstrava cansaço, mas não havia outra expressão que permitisse mais interpretações. Pelas roupas podia-se supor que passava necessidades.

“Mas que besteira a minha!  Entitular pessoas pelas vestimentas: ternos são diferentes de ternos sujos e rasgados, mesmo que tenham sido feitos com o mesmo tecido; roupas que uniformizam limitam as interpretações; camisas pretas com bandas que atravessam ruas ou com Che Gue Varas sem revoluções alguma nada querem dizer,apenas estampam opções e induzem ao consumo.” Mas interpretar a aparência de antemão não é um motivo para julgamentos. Meu cérebro reflete desse modo da mesma maneira que meu joelho refletiria a uma leve martelada.

Levantei do banco a fim de caminhar na praça aproximando-me da velhota. Ao passar por ela, pude ouvir sua voz, mas não entendi o que dizia. Olhava para mim e repetia:
- Você acredita na morte?
Esperei para responder. A resposta parecia óbvia demais.

- Sim, é claro!
- Pois duvide. Ela existe somente para os outros e nunca para você.

Meu silêncio preenchia minhas respotas. Ela continuava:

- A morte é imprevista e incalculável. Até mesmo os enfermos terminais são pegos de surpresa.
- Não dá para advinhar a hora não é minha senhora? – Concordei com um sorriso-riso planejado que mascarava minha vontade de partir.
- Não mesmo querido. – Aprovava e retribuia meu sorriso com uma simpatia banguela. – Nunca teremos a consciência do que é o fim, o nada.

Perguntei: - Você acredita em Deus?
- Sim, claro! – Ela respondia sem pestanejar
- Então, assim como eu, você também perceberá quando a morte chegar. Se escurescer, terá a visão; Se desfalecer: imaginação. Se houver dor, terá o alívio.
- Não vai ter dor no paraíso?
- Acredito que não.
- Mas se a dor não existir, o amor não será possível. Perderemos também a saudade; E os poetas...
- Haverá desapego do passado e do futuro: A vida Eterna!
- Todos os dias eu agradeço a Deus por não ter que ser eterna agora; Neste instante, nesta vida.
- Senhora: Então aproveitemos
        Enquanto ainda temos
         A possibilidade de sentir

- Então vá querido! Vai! – Dizia com impaciência e uma sutil hostilidade –Dê uma volta e vá conhecer as árvores da cidade! Você precisa renascer.

Sorri espontâneamente por ter sido dispensado. Retomei a direção que inciara antes da conversa e distanciei-me dela. Contornei a esquina e decidi não voltar pra minha casa. Deu-me vontade de rever Tereza.

Àquela altura Tereza já teria passado um café. Pedi, peguei e paguei os pães. Subi a Rua de Tereza e bati na porta com paciência.

Ela desceu as escadas e abriu a porta para mim. Havia colocado um vestido azul, discreto, mas que a contornava inteira. 

Estava linda! Provocante, provocou-me enorme deslumbramento. Estonteei! 
E não poderia ser diferente: Tereza fez-me esquecer da velha senhora. E até hoje nunca mais lembrei-me dela.