17.2.12

Rua Tereza, nº 1023

Acordei taquicárdico, assustado. Sabia que fora apenas um pesadelo, mas esse autoconhecimento não me confortou.  Não queria correr o risco de voltar a ter aquele sonho. Desisiti de dormir.

Aos poucos o pouco da claridade que invadia o ambiente ajudava-me a entender onde eu acordara. Meu raciocínio estava lento, minha cabeça doia. Mesmo sem muita nitidez por conta da sonolência, identifiquei alguns móveis: Não eram os meus.

O sol forte abafava. O cobertor - que apesar de cobrir apenas as minhas pernas – passou a me incomodar. Senti uma mão gelada segurando a minha. Virei-me para confirmar quem dormia ao meu lado, embora, pelo ato de apertar as mãos, eu já soubesse: dormia ao lado de Tereza. Dizia só conseguir dormir se nossas mãos estivessem entrelaçadas, que não conseguia ser diferente. Aquilo passava certo conforto a ela e, por isso, não negava, mesmo que me causasse um desconforto algumas vezes. Quando livrava minha mão da dela, apesar de todo cuidado sorrateiro nesse desvínculo, ela não tardava a perceber o vazio nas palmas e, quase sonâmbula, buscava-as novamente. Sinto que Tereza as procurava como uma forma discreta de verificar se já eu havia ido embora.

Pensar nisso incomodou-me e decidi que já era hora de partir. Sem soltar sua mão, mudei minha posição na cama como se ainda estivesse dormindo, de modo a ficar de costas para ela. Lentamente desentrelaçei os dedos e sentei na cama sem causar barulhos.

Num silêncio quase absoluto, levantei e procurei minhas roupas. Vesti a bermuda e busquei a camiseta que estava jogada do outro lado do quarto. Coloquei-a sobre o ombro e, mantendo o silêncio, destranquei a porta. “Minha carteira!” - pensei. Procurei-a em todas as primeiras gavetas de todos os móveis do quarto; Sem sucesso. Costumo guardá-la em lugares fáceis e práticos de se guardar e, portanto, deveria achá-la com a mesma facilidade, mas isso nunca acontece. O difícil é realizar buscas em silêncio: o sono de Tereza é sensível ao fechar de gavetas.

- Aonde você vai? – Disse erguendo o pescoço para conseguir me ver
- Comprar pão. Viu a minha carteira?
- Dentro da minha bolsa. Pode pegar...

Voltei para beijá-la e sai sem mais dizer.

Existe uma praça no final da Rua de Tereza. Desci a ladeira e sentei em um dos poucos bancos cobertos por sombras . As árvores cantavam por assovios. A praça e as ruas estavam vazias e os assovios dos homens ainda não haviam excedido o dos pássaros. Provavelmente ainda era cedo.

Resolvi descansar um pouco no banco em que já estava sentado. Permanecer. Aproveitar o cheiro de mato que a  gelada brisa trazia para organizar os pensamentos. Fiquei ali um bom tempo antes de decidir ir pra minha casa. 

Refletia. Pensava em Tereza, nas coisas que me faziam esquecê-la; No lindo canto vindo dos galhos e como se tornavam ínfimos perto do canto intenso e altivo dos homens, no incômodo e depressão que provavelmente sentiam os pássaros que, por serem melhores músicos, jamais compreenderão a simplicidade das notas ruidosas que saem dos motores e construções humanas.

Percebi, à minha frente, mas do outro lado da praça, uma velha senhora sentada e recostada sob as portas fechadas de um estabelecimento qualquer. 
Espreguiçava-se; Esticava as pernas; Comprimia o dia.

Interessei-me por ela. Intrigou-me. Observá-la naquela manhã seria um ótimo passatempo.

Reparei que não tinha os olhos tristes ou cabisbaixos, pareciam até ter uma certa soberba ou desprezo ao que lhe era alheio. Seu rosto demonstrava cansaço, mas não havia outra expressão que permitisse mais interpretações. Pelas roupas podia-se supor que passava necessidades.

“Mas que besteira a minha!  Entitular pessoas pelas vestimentas: ternos são diferentes de ternos sujos e rasgados, mesmo que tenham sido feitos com o mesmo tecido; roupas que uniformizam limitam as interpretações; camisas pretas com bandas que atravessam ruas ou com Che Gue Varas sem revoluções alguma nada querem dizer,apenas estampam opções e induzem ao consumo.” Mas interpretar a aparência de antemão não é um motivo para julgamentos. Meu cérebro reflete desse modo da mesma maneira que meu joelho refletiria a uma leve martelada.

Levantei do banco a fim de caminhar na praça aproximando-me da velhota. Ao passar por ela, pude ouvir sua voz, mas não entendi o que dizia. Olhava para mim e repetia:
- Você acredita na morte?
Esperei para responder. A resposta parecia óbvia demais.

- Sim, é claro!
- Pois duvide. Ela existe somente para os outros e nunca para você.

Meu silêncio preenchia minhas respotas. Ela continuava:

- A morte é imprevista e incalculável. Até mesmo os enfermos terminais são pegos de surpresa.
- Não dá para advinhar a hora não é minha senhora? – Concordei com um sorriso-riso planejado que mascarava minha vontade de partir.
- Não mesmo querido. – Aprovava e retribuia meu sorriso com uma simpatia banguela. – Nunca teremos a consciência do que é o fim, o nada.

Perguntei: - Você acredita em Deus?
- Sim, claro! – Ela respondia sem pestanejar
- Então, assim como eu, você também perceberá quando a morte chegar. Se escurescer, terá a visão; Se desfalecer: imaginação. Se houver dor, terá o alívio.
- Não vai ter dor no paraíso?
- Acredito que não.
- Mas se a dor não existir, o amor não será possível. Perderemos também a saudade; E os poetas...
- Haverá desapego do passado e do futuro: A vida Eterna!
- Todos os dias eu agradeço a Deus por não ter que ser eterna agora; Neste instante, nesta vida.
- Senhora: Então aproveitemos
        Enquanto ainda temos
         A possibilidade de sentir

- Então vá querido! Vai! – Dizia com impaciência e uma sutil hostilidade –Dê uma volta e vá conhecer as árvores da cidade! Você precisa renascer.

Sorri espontâneamente por ter sido dispensado. Retomei a direção que inciara antes da conversa e distanciei-me dela. Contornei a esquina e decidi não voltar pra minha casa. Deu-me vontade de rever Tereza.

Àquela altura Tereza já teria passado um café. Pedi, peguei e paguei os pães. Subi a Rua de Tereza e bati na porta com paciência.

Ela desceu as escadas e abriu a porta para mim. Havia colocado um vestido azul, discreto, mas que a contornava inteira. 

Estava linda! Provocante, provocou-me enorme deslumbramento. Estonteei! 
E não poderia ser diferente: Tereza fez-me esquecer da velha senhora. E até hoje nunca mais lembrei-me dela.

11.2.12

Aos Montes

Alçar as ideias ao pico. Arrastá-las a força.
Puxadas e amarradas por cordas firmes e apensadas com nós; Todos cegos.
Laços elevados pel’argumentação

E eis que elas chegam ao sumo, ao cume; aonde tudo se conclui.
A aspiração de toda ideia é tornar-se uma certeza

Ao mesmo tempo em que as novas convicções nos alcançam
Tomam o lugar de outras que nos ocuparam por anos

A ausência de algumas delas tornam possível a confusão:
Entre ingenuidade e coragem;
Entre incertezas e ausência de respostas.

Mas ideias pesam e comprimem o pico cada vez mais
Por vezes afundam. Amarram-se aos pés

Não sabemos ao certo
Se depois de submerso
A respiração será possível

Mas a presença do incerto
Possibilita a descoberta do improvável
Embora também apresente a desconfiança

Por isso tomamos fôlego no último instante.
Prendê-lo-emos ao máximo.

Ao suprimir o ar dos pulmões
Deve-se arriscar respirar o desconhecido

Mas antes que se chegue ao inevitável

É preciso racionar o que se tem como certo

6.2.12

Porvir

Um corredor reto e estreito.

Iluminado apenas por uma forte luz presa no teto
há alguns metros de distância.


Somente a frente,
naquele único lugar iluminado,
podia-se ver paredes de alvenaria e um corrimão enferrujado.
O resto escuridão.
Intuia-se ser um local homogêneo.
Receosamente, ergui o braço e alcançei o corrimão.
Conduzi meus passos mais confiantes a partir dali.


O cheiro úmido
e o som dos gotejos distribuidos
eram percepções sentidas
pelos pés a cada poça que os afundavam.

Do meu lado esquerdo
não havia corrimão.
A proximidade
com a parede
não permitia
 que eu esticasse o braço.

Mas além de tudo e oculto
existia intrínseco, no âmago:
Havia uma certeza. E seguramente absoluta.


A claridade a frente indicava o existente.
Chão, corrimão e espremidas paredes de tijolos laranja-enxarcado.


O que não se via após a luz,
embora estivesse iluminado mas ofuscado pela própria intensidade da lâmpada ,
não fazia a menor diferença.



O único caminho a se fazer apresentava-se a frente.


Possibilidades
de surgirem do escuro
novas passagens
                                                                                 o fez ansioso para
logo ficar sob a luz.


Mas não poderia correr.
O corpo resistia heroicamente à vontade de avançar,
mesmo que não fosse apenas um livre arbítrio do corpo.
O ambiente coibia tal ação.

Os passos se seguiam
no compasso de  alguns regulares gotejos.
O ambiente era maestro.
Regia.

Cansado. Os músculos se sobressaiam
a cada movimento.
Repuxava.
Repiração molhada.                                        Mas estava certo e seguia por convicção.

3.2.12

Enche a Queca

Dores de cabeça que não passam. Latejantes: Arquejam e pulsam.
Dores por desejos latentes.

É tão difícil acertar quando o erro nos vigia de perto

Penso em situações em que o erro e o acerto são diagnosticados pela mesma atitude.
Antagonias se repelem, mas podem coexistir.

As pancadas dão voltas na cabeça:
Sobem, descem, espremem quando não encontram espaço.
Desorganizam o sentir e ressaltam o irreversível.

Relaxo o corpo e amordaço a alma.
Uso recordações na tentativa de trazer conforto
Desfaço nós cerebrais, despressiono.
Deprecio gostos que não me lembro.
Desapego-me do desnecessário.
Despejo inútil. A dor é mais presente do que eu.

Contento-me em ter percebido
Que vidas inteiras tornaram-se apenas memórias.

A dor me afasta do que é vivo
Enclausurando-me em minha cabeça
Idéias, falas oprimidas e lembranças omitidas
São agora pensamentos  pontiagudos.
Revelá-los não trarão outra coisa se não o prolongamento da dor.

Tiro proveito de situações
Curto as dores. Aprendi que sentir algo é manter-se vivo,
Embora, agora, eu aceite qualquer alívio que se ofereça.
Intensifico a vontade de superar o que fora intenso
E peco por errar comigo mesmo

Traio os meus desejos ao persistir conscientemente no erro
Traio os meus anseios ao considerar ambições alheias,
Ao relevar aquilo que me é inerente, intrínseco: exponho-me.
Faço-me frágil diante de mim. 
Traio-me ao permitir a permanência da dor. 
Ao consentir que ela se espalhe. Ao coibir a solução.

1.2.12

Diálogo de dois egos

- Mai... comé qui pódi Juão?
- Sei lá ué, sou assim mesmo. Não é poder ou não poder. É questão de acontecer ué.
- Mai você num fai nada pá mudá? Comé qui pódi si conformá? Si contentá assim?
- As coisas não são fáceis pra mim Martchiélo. Já fiz coisas muito boas e você sabe disso.
- Sei sim. Você foi uma grandi pessoa... sem dúvida.
- Tenho saudades sabia?
- Claro quitem. Mai o que passô só existi na lembrança. Só sérvi de confôrto pra nóis.
- Preenchia o meu dia com aquilo que mais gostava. Não sabia disso na época, mas agora sei.
- Amanhã vai achá qui o hoji tava melhó. E pur quê num si arrisca mais? Tá apegadão ao hoji? – risos
- Todos nós somos apegados ao hoje Martchiélo...
- Menus você, qui dórmi i acórda grudado cu passado.
- E você é diferente em quê?
- Pára com essa mania de se comparar porra! Si compari cum você só. Seja seu parâmetro.
- Comparações são necessárias. E inevitáveis.
- Eu achu qui você só olha pra trás, evita o qui virá e esgota o hoji cum falsos aprendizadus.
- Todo dia aprendemos algo, não fale besteira. Essa conversa simples, por exemplo, não te acrescenta nada?
- Claro! Mai é tão poco que acrescenta qui num dá nem pra percebê. - risos
- Se prestar atenção estamos evoluindo sempre. Querendo ou não. Qualquer coisa besta nos faz diferente do que antes.
- O qui to tentano dizê é qui a velocidadi da evolução é qui é importanti. Então observar os otro evolui te faz evolui junto tamém?
- De certa forma sim. Mas pouco importa a velocidade dos outros. Estão desesperados por reconhecimento. Todos uns vaidosos.
- Preféri a despretensão?! É a sua cara.
- Pelo menos dependo somente do meu reconhecimento de que as coisas estão estagnadas. Não busco aprovações.
- Você num busca nada. Ai qui tá! Só qué consomi as horas com o irreal. Devi ser legal viver esse mundão qui sua cabeça cria.
- Esse mundão aqui tem vários planos, está sempre criando, pensando, refletindo...
- I jugando o redór tamém. Suas idéias si divorciaram do corpo. Pensá é bom, mas num materializa. Vai morre tudo ai.
- Vai nada. Amanhã eu coloco tudo em prática. Se Deus quiser!
- Ele qué sim Juão! Vai dá tudo pra você sem tirar di ninguém.
- Amém!


30.1.12

O Concreto e SAMPA CiTi

O que dizer do chão?
Dos pisos que tanto piso e observo?
Indigno e Indiagonado seguem os meus olhares.
Olhos que miram os pés
Olhos que lembram de outros olhos.


O chão: pernas; calçados; calçadas; cardaços.


                                                A cidade: paralela e transversal.                Faixa de pedestre.


Os olhos: fixos, atentos. Absortos.


Enquanto as sujidades repelem o ideal
Tolero que as lacunas não se preencham por completo
Não se faz mais necessário
O ideal existe, mas não é possível


Solto, na cidade, sou mais um
Sinto-me um alvo
             Embora eu possa oferecer riscos como qualquer outro
Onde os grupos se intercalam?
Onde a loucura é aceita?
Onde não há verdade única.
Onde a cidade ainda não está feita.


Não me importam as verdades ditas,
Nem o quanto de verdade contém nelas
Não me importo que me enganem.
De certo modo, permito.

Pois viver
pode ser
apenas
Perceber as sensações

22.1.12

Chuva (de verão)

Lentamente. Os sorrisos resistiam.
A chuva se pronunciava;
Exalava cheiro de asfalto molhado.
A chuva rala perfumava.

Seu som de queda; Constante
Era música para os surdos de ruído

Tocavam o chão
Tocavam como vassouras jazzísticas

Umedeciam meus melhores pensamentos
E arrastava-os feito uma enxurrada

Os pensamentos mais antigos
Que, por privilégios por tempo de serviço,
Permaneceram fixos e inabaláveis,
Haviam se transformado em amores, religião ou ideologias.

Serei eu o que sempre sobra após as enxurradas?

A chuva é simples.
Não comporta tamanha complexidade e estudo.
Dicotômica e indiferente.
Divide apenas por secos ou molhados.

Iguala e faz-me desimportante:
Minhas dores não são as maiores do mundo.
Embora somente eu as valorize desta maneira.

O que se aloja em minhas ideias torna-se meu 
E de imensurável importância para mim.
Alocam-se em meu organismo:
Onde chuvas não alcançam
E enxurradas não arrastam.

16.1.12

Lacuna


Lembro-me do tempo em que eu não levantava tantas questões. Crianças não se situam no universo. Não havia necessidade de tantas respostas e nem lacunas para serem preenchidas. Éramos somente eu e meu imaginário talento para a arquitetura.

Eu era excelente na arte de projetar formas. Divertia-me criando edifícios em lugares inalcançáveis. Está ai coisa que adoro: Alcançar esses lugares.

Certa vez, em um dos vários terrenos que arredoavam a pequena vila em que eu morava, descobri uma enorme árvore. Era imensa. Nem 100 homens juntos poderiam abraça-la.

No mesmo dia em que a conheci escalei-a e fiz dela uma nova casa. Não precisei de muitas madeiras ou pregoadas, apenas investi muita imaginação. Criei estantes em seus galhos menores e fiz cama dos maiores. Nos galhos em que sempre havia sombra localizei a minha vista secreta. Por que crianças adoram nomeações secretas? De lá pude avistar piratas, cavaleiros do rei Trouxo, bruxas voadoras e diversos outros inimigos.


Imediatamente corri até em casa para fazer as malas para a minha mudança. Não precisei de muitas coisas: apenas alguns objetos, uma bola de futebol e cartas e desenhos que recebera de Ana.


Tenho saudades do tempo em que Ana e meus outros amigos tinham para mim igual valor. Enquanto não dava atenção para desconfortos da alma, simplesmente por que eu ainda não os tinha, brincava com todos sem nenhuma preferência de companhia, embora fossem as cartas e desenhos de Ana as únicas que eu ainda guardava.


Decorei minha nova casa colando todos os desenhos em galhos e folhas, que para mim eram paredes; coloridas; e que mudavam de cor assim que eu quisesse. 

Camuflava-me. Chamava a atenção. Mas quando Ana estava por perto mudava rapidamente a cor para um tom de roxo escuro criando nela impressões maravilhosas: "Qual garoto tem paredes roxas em sua casa de árvore?" certamente pensava. Sempre achei que essa pergunta fosse intrigante demais para que uma garota resista e não se apaixone.


Mas foi justamente Ana quem me deu uma das maiores tristezas sofrida na infância. Assim que eu expliquei a ela que aquela seria minha nova casa e gentilmente a convidei para subir, foi imediatamente dizer aos meus pais que eu queria me mudar sem avisá-los. Tentei mentir, mas ela acusou-me de desentendido e dissimulado. Quem ensina palavras como essas para uma criança?


Quando anunciou a mudança aos meus pais, todos meus outros amigos estavam presentes e meu segredo arbóreo se desfez tão rápido que não pude evitar. Fui condenado a dividir a imensa árvore com todos, exceto com Ana que não conseguia subir sem arranhar-se inteira. Todos meus desenhos, feitos por ela, foram encontrados pelos cruéis invasores e então usados para sempre caçoarem de mim.


Adorava aqueles desenhos, mas passei a odiá-los. Tomei a decisão que qualquer criança sábia tomaria: Abandonei a arquitetura para que minha masculinidade nunca mais fosse afetada por romancear com menininhas idiotas.


Que saudade do tempo em que podia odiar tudo que vinha de Ana. Saudade do tempo em que tudo tinha a mesma valia para mim.
Pois hoje Ana causa tristezas maiores. Mas compará-la a essas memórias descritas ou a qualquer outra coisa que eu consiga me lembrar em dias futuros nunca servirão de parâmetro para o tamanho que ela me ocupou.
Sinto saudade do tempo que nunca vivi.

13.1.12

Caça

 - Corra! Corra! – dizia o ambiente às minhas pernas

Corria. Esfregava as mãos no rosto. Suava. Ofegava.
Barulhos silenciosos, eu e uma densa escuridão
Passos e vozes se aproximavam e por vezes ultrapassavam-me.
Estava cercado? Por que isto seria necessário para eles?

- ME DEIXEM! - Gritei

Os matos revelavam os deslocamentos
Mas o silêncio se fez e não suportei a surdez que ele causou
Era eu o necessitado agora
E coincidentemente por motivos que também desconhecia
Queria ouvir. Estava surdo de silêncio.

Aflição. Agir! Qualquer direção:
Corra! Corra! – alarmava o imprevisível às minhas pernas

O calor abafado que aquela imensidão de nada continha
Ditava os ritmos dos meus compassos
Mudava a direção. Os sentidos. Você consegue sentir o gosto de uma moeda de 1 Real?

As árvores omitiam algo e o algo desejava a minha consciência
Com a mesma intensidade que eu a desejo.
Em ilustrações cegas. Órfão de formas e cego de cores.
Percebi sombras no escuro.

Senti uma respiração em meu ombro.
Gélido. Imóvel. Suspenso.
Permaneço.

11.1.12

Mona

Deliciosas perguntas
Que ficaram entreabertas
Embora já estivesse tudo decidido.
Evitei compartilhar a desejada resposta.
Não quis abreviar nossas conversas.

Interrompia-se a contagem do tempo
Enquanto você falava e me olhava
E quando, vez por outra,
Decidia examinar-me com seus escuros olhos
Fazendo simples observações

Procurávamos discretamente
Demonstrar analogia
Embora fossem suas discórdias,
Seu jeito de me convencer que eu estava errado,
Que mais me impressionavam

A reclusão que pedi
E que aceitaste quase impaciente
Foi meu último recurso
Uma tola tentativa
De me aproximar da negação

Mas a resposta que já existe
Dispensará interlocutores.
Revelar-se-a de súpeto
Aquilo que nossos olhos
Não se esforçaram para esconder.

9.1.12

Pouso

Ofereceram-lhe um voo daqueles que não se oferecem com frequência. Não sabia – e nem teria como saber - a altura que esse voo alcançaria e nem se conseguiria retornar com pouso tranquilo, mas a mistura dos riscos e mistérios que envolviam esse voo causavam nele um diferente frisson.

Para ele era certo que os voos são somente para os pássaros, já acostumados ao convívio junto aos fortes e quentes ventos que sopram lá em cima. Adorava os pássaros, via neles admirável companhia e, por eles, não se atreveria a invadir espaço tão estranho e atraente, mas tal vista que o voo pretendia oferecer-lhe fazia o ponderar se voar também não seria coisa para os homens.

Aliás, qual homem recusaria a oportunidade de voar?

E depois da subida, qual seria a importância de se sentir um ser estranho entre os pássaros ou saber que o mais exaustante esforço nunca o faria um deles?  Mas o que realmente importava naquele momento?

Frios na barriga são importantes.

Tomar decisões é aventurar-se. Não existem vidas passadas para se fazer comparações e nem futuras para correções. Acertos e erros são resultados; apresentam-se apenas no fim.  Aventuras podem trazer receios e serem desgastantes, mas prometem sensações quase-inéditas e inesquecíveis.

Céu pleno; um azul sufocante, intenso e infinitamente extenso. Deitar-se e repousar sob os trópicos não parece ruim. Parece? 

4.1.12

Confissões de Gérson

Tem gente que é soberba. Tália é o nome dessa gente. Mulher esguicha, reta como a linha do horizonte. Tão comprida que a chamava de minha divisora de águas e ela adorava o carinhoso apelido sem desconfiar.

Com a personalidade mais forte que chá de cogumelo e tão boa quanto um chá de boldo, conduzia nossas discussões com notável facilidade, desnivelava a conversa sempre para o lado do que já foi dito, desprezando meus contra-argumentos. Não adiantava perseverar ou praticar esforço, pois ela sempre foi possuidora de ideias com raízes fortes.

Tália era única para mim. Antes dela eu já havia namorado diversas mulheres que insistam em ser o meu ponto fraco, mas tal virtude não fez delas um comparativo digno para com a grandeza que Tália começava a tomar em minha vida.

Tália. Mulher madura, dura com as palavras. Talhava suas ideias num molde de flecha.
Tália foi tornando-se um inferno durante a nossa relação. Certo dia chegou ao ponto de afirmar que meus olhos não eram tão claros quanto minha mãe dizia. Não cabe nem dizer aqui que se trata de um completo absurdo, já que Mamãe me observa há muito mais anos.

Numa outra ocasião fomos comprar sapatos novos e, por conta dela, sujeitei-me ao ridículo. Tália me envergonhou extremamente quando começou uma briga desproporcional com o som ambiente. Revelou-me a todos ao perguntar o porquê d´eu sempre procurar sapatos 40 se na verdade deveria calçar 33.

O problema é que minha amada era ótima na cama e isso compensava tudo. Quando demos a primeira boa trepada - depois de bons 2 anos de boas tentativas – eu percebi que ninguém havia sido como Tália; E nem poderia. Toda mulher tem suas artes na hora da transa e soube disso por ela. Eu enlouqueci quando, numa madrugada, descobri que o seu verdadeiro segredo era lavar-se antes de me acordar para o coito.

Mas eis que surge o irreversível: greve de sexo! Após uma brusca tentativa minha de inovar na transa, chutei-a violentamente no rosto quando busquei surpreendê-la movendo rapidamente minha perna na tentativa de repetir a posição do escorpião-alado que havia visto em uma dessas revistas que dão dicas para agradar o companheiro. Somente depois percebi que tal posição era utilizada pelos japoneses para abrirgar-se em caso de terremoto.

Tália ficou puta! E jurou que nunca mais daria pra mim. Caros, ali... perdi o chão.

Sem justificativas:
A vida é minha e interrompo _ela e no que nela estiver_ no momento em que eu bem entender!

Decidi abandoná-la - sem lhe dar satisfações - e voltar à antiga vida. Retomei meu antigo cargo na carreira pública. Devido ao acúmulo de experiência em meu antigo posto, sou agora o encarregado-mor do Rei Apitômulo: Passo minhas noites erguendo lampiões para aquecer e entreter suas raras mariposas-azuléias-reais.

...

30.11.11

Pronto!

Esqueci de responder perguntas simples
Fáceis de serem respondidas

A indecisão é um estado condenado a ser passageiro,
Mas que se aloja por tempo que não se avisa

E agora que tenho a resposta de prontidão
A pergunta desfaleceu

Marcar compasso fora do tempo é uma das aptidões da vida
Outra é ser desprovida de anuência.

14.10.11

Zelo

Enquanto escondo-me
Torço para que me procurem
Recuso convites ainda não feitos
Permeio por meio de repulsas

E quanto ao vento
Que se aproveita do seu cheiro
Que se espreme entre nós
Completa o não preenchido
Contempla suas formas
Torna complectível a atmosfera

Bate brisa! Traga-me o perfume:
E num só ato, o hausto me fez alto.
Ébrio e sedento,
Febril e sedante,

Cedo, cederei ao seu perfunctório perfume.
Antes que seja tarde
Antes que chegue à tarde.

3.10.11

In Diz Gestão

Tranquei-a e engoli a chave.
Traquéia. Encobrindo achados.
Metal rasga goela abaixo.

Esôfago, sulcos: Lâmina hospedeira.
Estômago, suco: Omissões corroídas.
Palavras escondidas criam sua casa. Tumor.

Mais fácil seria engolir apenas o segredo.

29.9.11

Insônia

E mais uma noite com o mesmo problema. Insisto; persisto; viro de lado; reviro. O tempo caçoa de mim. Ri e troça. Tortura-me sem prazer nenhum. Me dita o tempo. O tempo medita: Um tento, dois tentos. Tento diversas posições enquanto o tempo escorre; travesseiros acima e abaixo da cabeça; entre as pernas. Descubro-me: faz muito calor nestas noites. Por fim desisto e novamente assumo que não venho tendo boas madrugadas de sono. Sem me levantar da cama, estico o braço e alcanço o controle sob o criado-mudo. Deslizo os dedos sob o objeto e com admirável talento no tato encontro o botão que me liga para a televisão. Passo, repasso e pulo os canais. Nas horas em que é preciso nunca se passa um bom programa na TV. Não sei se é o horário ou o dia da semana, se é o acaso ou meu plano de assinatura; sei que encontrei no máximo um filme bom dentre as outras reles opções. Mas não acordei para isso. Não sei nem qual o motivo de’u acordar justo agora!

Dúvidas pontiagudas me fazem sentir uma latejante dor-de-cabeça junto com um crescente mau humor que a faz aumentar pouco-a-pouco. Já estou cansado demais para filmes e mais cansado ainda para filmes hollywoodianos e seus efeitos especiais que não tornam o filme especial. Prefiro diálogos às cenas explosivas. Desisto da televisão. Há noites em que ela serve somente para iluminar meu quarto à meia-luz. Esta foi a função que mais utilizei nos últimos dias. Evito acender as luzes pelo incômodo que trará aos meus olhos, por isso deixo a TV ligada; quase sem som. Ela traz um tom quase azulado ao meu quarto e uma estranha sensação de que não estou sozinho. Acredito não haver desperdício em deixa-la ligada dessa forma, pois já tentei permanecer com ela desligada: a solidão foi iminente.

A pouca luz não me incomoda. Agrada-me andar pelo quarto quase escuro. Lembrar-me disso despertou-me por completo. Levanto e, como de costume nessas noites, aproximo-me da enorme e única janela que há em meu quarto. Sento-me na cadeira que há três dias está intocada. Não a movo dali porque minhas insônias estão cada vez mais frequentes e meu passatempo favorito nestas horas da madrugada é sentar-me nela e espiar o que se passa lá fora a três andares dos meus pés. Observo a erma rua pacientemente. O silêncio prevalece. Coisas ínfimas - tosse, passos, espreguiço – causam estrondos na madrugada. Engana-se quem pensa que o tédio impera nesses momentos. De fato, às vezes se esgotam as ideias, mas em quase todo o tempo os pensamentos se atropelam em minha cabeça. Intensos; Inesgotáveis. Interrompo-os todos quando percebo o surgimento de algum personagem em meu cenário. Fico imóvel como se qualquer movimento meu pudesse afugentá-los. É quase cômico o que se pode observar nestas horas. Existe um misto de medo e desconfiança em quase todos os semblantes. Todos com seus pressupostos criados por conta do horário.

Certa vez observei um senhor bem maltrapilho que caminhava com dificuldade. Decidi atuar junto com ele. Esperei-o alinhar-se comigo e o surpreendi com um curto grito. Devo ter gritado “VAI CARAI !” prolongando as vogais, mas não tenho certeza exata disso. O importante foi o resultado do grito. O senhor olhou rapidamente para todos os lados e avistou alguém que se aproximava por trás. Confuso, correu do jeito que pode até a esquina. De lá seguiu com passos rápidos e irregulares, sentindo a frouxidão de suas pernas causada pelo susto. Aquela cena me alegrou irrisoriamente. Voltei para a cama e sufoquei o riso com o travesseiro por medo de ser identificado por algum vizinho que acordara com o grito. Desliguei a tevê e esforcei-me para não ser notado. Ouvi algumas janelas acima abrindo e fechando logo em seguida. Naquela noite não sofri para voltar a dormir. Pelo contrário. Pareceu-me que o tempo todo estava com um sono insuportável. Mas hoje parece ser diferente.

Poucas foram as vezes em que dominei a insônia. Estou sentado aqui há um bom tempo e nada dos atores subirem ao palco. Mas não tenho pressa. Acabei de voltar da cozinha. Coloquei uma água no fogão para preparar um chá. Ajuda-me a esperar o melhor da noite.

Eis que se inicia o primeiro espetáculo de hoje. Um homem vem discutindo com um cachorro que o segue de perto. O sujeito fala alto; grita. Distingo algumas palavras suas e percebo que está ordenando ao cachorro que se afaste. Usou de todos seus argumentos para convencer o vira-lata e não obteve o mínimo de sucesso. Talvez por isso tenha decidido chutá-lo. O cachorro rolou na calçada até cair na rua. Acredito que o homem sabia que ninguém o observava; Não sofreria julgamentos por aquele ato. Penso que tenha tido realmente a intenção de causar dano ao cachorro. Aquela cena em quase nada me atingiu. Não me causou pena, raiva, alegria ou sentimentos relacionados a impunidade. Somente pensei, por um breve instante, que a ausência de um observador pode aflorar uma parte adormecida de nós.


De onde ele estava conseguiria enxergar-me, mas quase ninguém tem o hábito de atentar-se às paisagens acima de nossas cabeças. Esta noite ele tinha um telespectador e não sabia. A cena continuou. O cachorro, depois da queda, manquitolou de início, mas de supetão avançou nas canelas do homem, mordendo-o por trás. Ali começou o auge da peça. O homem tentava se livrar do vira-lata ao mesmo tempo que pensava em fugir, mas não poderia, o cão já estava anexado pelos dentes. Finalmente, com um movimento bruto, o homem livrou-se do cachorro. - Uma grande luta! - Podia sentir o rosnar dele daqui. O homem passou a respeitá-lo a partir daquele momento. Usou de velhas artimanhas. Ameaçava lançar pedras que fingia colher do chão. O cachorro permanecia imóvel; latindo; espumando vingança.  O homem prosseguiu seu caminho andando de costas, sem desviar o olhar do bicho, sempre de frente para ele que de início o acompanhou, mas o deixou distanciar. Perdi o homem de vista. Passou uma idéia esquisita em minha cabeça, deu-me vontade de ir à rua e adotar o furioso cão. Identifiquei-me com ele. Mas não encontrei a chave da porta e poupei-me do esforço que seria procurá-la. Fechei as cortinas do teatro, preparei o chá e tomei-o deitado na cama. Cozinhei ainda por algum tempo e sem escolha acabei por adormecer. Quando acordar serei eu o ator da vez. Qual será o enredo que ainda nos espera? 

28.9.11

ÁVida

Faz de mim o que bem quiser
Não sente vontades, desejos, remorso
Randomiza os meus planos; atrapalha-os enquanto oferece outros
Nem sequer experimenta o prazer de tamanha autoridade
És ambígua, exata, ardil, viril e decadente
Ganharei a liberdade quando se enjoar de mim
Liberdade escura, tediosa, sem movimentos, sem enlevações; Eterna.

22.9.11

Erro


Atitudes são apenas atitudes,
Ações e nada mais.
Tornam-se errôneas ao fugirem de um modelo de ideal.


Modelo que é criado por um grupo e vários outros grupos coexistem simultaneamente, criando modelos que se opõem aos outros por uma questão de sobrevivência.


Errar, portanto, é fugir de um modelo pré-estipulado.
Errar é conflitar com o absoluto, é opor-se ao molde e aos rótulos. 
É abdicar de um caminho retilíneo em que é certo que se o seguirmos nada de excêntrico acontecerá. Mas traçar caminhos é tão recompensante.

16.9.11

ATLÂNTIDA

Desapareceu ao mergulhar e nadou na direção de onde nada se via. Esforçou-se para ganhar velocidade, mexendo rapidamente as pernas e os braços, e somente quando não pode mais aguentar a pressão que perturbava seus ouvidos largou o corpo e aguardou o seu retorno. 


Tudo era escuro ao seu redor, nada se definia pelos olhos. Algumas vezes sentiu passar algo entre as pernas, agitou-se assustado pelo desconhecido. Não suportava mais aquela água enlamaçada que o incomodava quando mantinha os olhos abertos e, por isso mesmo, resolveu de olhos fechados criar a sua própria paisagem.


 A temperatura da água o impedia de imaginar-se num local quente. Mas, em alguns momentos, esquecia-se que estava submerso. Avistou objetos sem forma, pessoas disformes e em constante movimento. Corpos dançantes. Uma dança ditada pelo ritmo das águas. A definição de paisagem que sua mente criava era particular daquele mergulho. Uma imagem única e irrepetível.

A falta de ar começava a lhe encher os pulmões. Percebia que seu corpo mal se movia e que perdera totalmente a noção da direção que deveria tomar. Tudo era igual, isótropo. Não ouvia mais nada além de seus gritos abafados e não propagados. Estava preso e sabia que ali estava o seu fim. O corpo lutava desesperadamente pela sobrevivência. Sua mente era somente ação. Não mais refletia sobre os problemas iniciais que o levaram a mergulhar até ali. Seu afogamento tornara-se a prioridade dentre os outros incômodos. Cansou de se debater e parou, por alguns instantes, quase inconsciente.

Percebeu um leve arrastar do seu corpo numa determinada direção. Sem tempo para paciência, aproveitou essa oportunidade concedida pela água e nadou na direção indicada. Enxergou um tímido clarão. O feixe de luz indicava que a superfície não tardaria a chegar. Lutava para fugir do refúgio que ele mesmo descobrira. Mas sentia que já era tarde. Não havia mais ar em seu peito, músculos e mente. Exausto, perdera a noção do tempo; não havia mais tempo!; nem o passar do tempo. Não havia mais problemas e não procurava soluções. Só existia ele, o desespero e o improviso.

Emergiu!

15.9.11

INtervalo

Então realmente existe este lugar estreito e imensurável?!
Um lugar vago que enquanto vago é certo que nos traz certa melancolia.
A sorte é que somos muitos. 
E desses muitos sempre existirá alguém para alocarmos.
O problema é a fácil confusão que poderemos fazer: Encontrar alguém que pareça se encaixar perfeitamente neste espaço não é o sumo de encantamento, mas o sentimos como se fosse. 
O engano mora ai.
Locupletar-se de êxtase é possível somente quando não se admite mais nada nesse lugar.
E há pessoas que, sem perceber, deixam vãos.
Aquele que não é cabal é completamente insatisfeito.
Abastecemo-nos com vidas alheias.

6.9.11

SUBMERSIVO

Há algum tempo que me esforço para que os meus dias se encerrem depressa.
O pior de tudo é saber que o dia seguinte será exatamente igual ao dia que agonizo pelo fim.
As mesmas incertezas; as mesmas necessidades.

Existem fraquezas que te tornam mais fracos se expostas.

A ira torna-se veemente com o passar das horas.
Minhas inquietudes transbordam e já não cabem mais em mim.
Exteriorizar esta melancólica submersão torna-se-á, sem dúvida, uma má impressão resultante de uma inevitável reação violenta.
Procuro uma causa para explodir. Preciso dizer injúrias com a boca cheia!

Mas por hora prefiro ficar recluso para que as minhas possíveis atitudes não se tornem uma base futura para acusações de minhas potencialidades.
Não sou assim. Não sempre.

22.8.11

Dias

Têm dias que adio o meu despertar;
Em outros, repousar será um estado de impaciência.

Têm tardes que me empenho para que elas passem depressa;
Já em outras não percebo o chegar da noite.

Há noites que parecem não ter fim
E têm aquelas que se parecem com uma qualquer.

Às vezes torço para que o dia acabe em breve;
Outras vezes, ansioso, quero que ele acabe pelas expectativas do dia seguinte.

O problema é que dia-após-dia o fim acontece.
Dias agradáveis ou aflitivos, proveitosos ou não: eles passam, findam e arrastam-me para esse fim. Um pouco de mim se encerra a cada dia.

Carrego, para os dias que virão, o resumo dos já encerrados.
Ciclos repetitivos e infindáveis, imprevisíveis e óbvios.

A expectativa da não repetição torna-se a energia contida em meus músculos e fazem dos pensamentos matéria tangível.