4.1.12

Confissões de Gérson

Tem gente que é soberba. Tália é o nome dessa gente. Mulher esguicha, reta como a linha do horizonte. Tão comprida que a chamava de minha divisora de águas e ela adorava o carinhoso apelido sem desconfiar.

Com a personalidade mais forte que chá de cogumelo e tão boa quanto um chá de boldo, conduzia nossas discussões com notável facilidade, desnivelava a conversa sempre para o lado do que já foi dito, desprezando meus contra-argumentos. Não adiantava perseverar ou praticar esforço, pois ela sempre foi possuidora de ideias com raízes fortes.

Tália era única para mim. Antes dela eu já havia namorado diversas mulheres que insistam em ser o meu ponto fraco, mas tal virtude não fez delas um comparativo digno para com a grandeza que Tália começava a tomar em minha vida.

Tália. Mulher madura, dura com as palavras. Talhava suas ideias num molde de flecha.
Tália foi tornando-se um inferno durante a nossa relação. Certo dia chegou ao ponto de afirmar que meus olhos não eram tão claros quanto minha mãe dizia. Não cabe nem dizer aqui que se trata de um completo absurdo, já que Mamãe me observa há muito mais anos.

Numa outra ocasião fomos comprar sapatos novos e, por conta dela, sujeitei-me ao ridículo. Tália me envergonhou extremamente quando começou uma briga desproporcional com o som ambiente. Revelou-me a todos ao perguntar o porquê d´eu sempre procurar sapatos 40 se na verdade deveria calçar 33.

O problema é que minha amada era ótima na cama e isso compensava tudo. Quando demos a primeira boa trepada - depois de bons 2 anos de boas tentativas – eu percebi que ninguém havia sido como Tália; E nem poderia. Toda mulher tem suas artes na hora da transa e soube disso por ela. Eu enlouqueci quando, numa madrugada, descobri que o seu verdadeiro segredo era lavar-se antes de me acordar para o coito.

Mas eis que surge o irreversível: greve de sexo! Após uma brusca tentativa minha de inovar na transa, chutei-a violentamente no rosto quando busquei surpreendê-la movendo rapidamente minha perna na tentativa de repetir a posição do escorpião-alado que havia visto em uma dessas revistas que dão dicas para agradar o companheiro. Somente depois percebi que tal posição era utilizada pelos japoneses para abrirgar-se em caso de terremoto.

Tália ficou puta! E jurou que nunca mais daria pra mim. Caros, ali... perdi o chão.

Sem justificativas:
A vida é minha e interrompo _ela e no que nela estiver_ no momento em que eu bem entender!

Decidi abandoná-la - sem lhe dar satisfações - e voltar à antiga vida. Retomei meu antigo cargo na carreira pública. Devido ao acúmulo de experiência em meu antigo posto, sou agora o encarregado-mor do Rei Apitômulo: Passo minhas noites erguendo lampiões para aquecer e entreter suas raras mariposas-azuléias-reais.

...

4 comentários:

  1. Putz, escorpião-alado é foda! kkkkkkkkk

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  2. pose de bola =76%, oh loko, grande meio de campo, doido e divertido,
    obrigado

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  3. Este comentário foi removido pelo autor.

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  4. Tão envolvente que consegui me sentir o próprio Gérson, ou a própria Tália. Demais!

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O que vier de sua cabeça será bem-vindo....