26.3.12

PARTE I – MEMÓRIA BRUTA

A vida bruta.
A soma de todos os pormenores não é armazenada pela memória.
Portanto a vida bruta não é igual a memória bruta.

O nosso natural amadurecimento é prova
De que não esquecemos de tudo que vivemos.
Mas a memória reduz as dimensões da vida.
As horas idênticas se aglutinam
E as rotinas passam a ter, para a memória, a duração de um único e longo dia.

Uma redução cabível à nossa capacidade, uma adaptação às nossas limitações.

Não há esquecimento por nossa parte
Apenas há-a-não necessidade de lembrarmos de todas as repetições
E/ou uma falta de habilidade para distiguirmos horas tão semelhantes.

Por isso damos importância aos pormenores.
Os detalhes ganham enorme encantamento.

Não lembrar da união cronológica dos nossos segundos até a idade atual é doença que traz vida.

Apesar da intensidade do não-vivido
Sabemos que haverá um descarte natural da maioria dos próximos momentos
Por conseguinte, valorizamos o que ainda não se viveu.

As próximas horas serão mais importantes do que os zilhares de segundos que já consumimos.

Tento compreender o que foi retido para consumir o inabitável.

20.3.12

Capricho

Retroceda à criação ,
Conserve a perturbação e transforme-a em artes depreciativas.

Melhor não ler livros antes de escrever
Ou ouvir álbuns dum mesmo estilo antes de compor
Semelhanças óbvias serão expostas
Melhor é não se envolver para redigir
Pra não reencontrar o que já não se lembra

Para seduzir ao engano é preciso dissimular
Tentativa vã de não se traduzir as ideias,
de não transluzir o que se pensava ao escrever esta palavra(exatamente esta!)
Também é válida a falta de pensar que há-na-não correção das frases tortuosas

Enganar o leitor mais do que enganar a si mesmo
Assim mesmo! Dizer nada sobre o nada.

Sobre a falta de intenções ortográficas
Contra a inspiração que se esconde
e que confronta
contra
o ânimo em sair do ócio

Apenas ceder ao capricho de querer
Encher este espaço de letras.

4.3.12

A Ventura

Desde o início sabíamos da entropia
Por mais prazer que uma desordem traz
Sempre causa estragos quando se acaba

Pelaventura que tornavam os segundos mais extensos
Pelasensações insólitas trazidas pelas madrugadas
Era capaz de afirmar ter sido apresentado à Felicidade
Sentia seu afastamento tornar o que era normal em horas saudosas

Mas a distância,
Que antes eram promessas de um breve reencontro,
Agora me despedaçam com violência

Pelalegria que tornava o todo irreal
Pelosentimentos que desorientavam
Pela culpa em me sentir mais feliz que os arredores
Era capaz de supor memórias que não morreriam

Abrir mão de bons momentos
É também perder os parâmetros
Pois a noção de felicidade
Faz o cotidiano parecer monótono, vazio, triste
Mas sem as comparações a realidade torna-se insustentavelmente leve

Está ai o ponto-de-partida de uma fuga:

Não conviver com o melhor
Faz a angústia perder o peso que teve

27.2.12

Traição

Dominar o impulso e controlar os batimentos são coisas possíveis?
Domar o instinto e postergar questões  são coisas  passíveis?


Desviar a elocução àlguém de menor importância é um recurso dos fracos.


Assim como se engrandecem as enfermidades após a consciência do diagnóstico,

aceitar a fragilidade sentida é debilitar-se mais.


Uma possibilidade tangente incomoda, mas não deveria.


Existem alguns valores morais que de tão intrínsecos e hereditários

São confundidos com sucessões genéticas.

Parecem contidos no espírito, nas vísceras.

Abdicar deles e propor que a estrutura se altere é ousado e revolucionário.


Possuimos o direito de manifestar um desejo tirano?

Fujo das exigências que o corpo teima em pedir.

Tiranos querem ser únicos.

Extinguem a liberdade a fim de ganharem maior influência

E acabam por obter repugnância e um inevitável destronamento


As possibilidades que machucam simplesmente ao imaginá-las

Trazem consigo uma agonia não-imaginária, real;

Que pode ser sentida, ouvida e expressada.

Mas optamos em remoê-las

Por serem patéticas a ponto de tornarem suscetíveis o escárnio e o ridicúlo.


Assisto calado,

Pois as palavras transbordam.

Entende-se muito mais do que realmente se tentou dizer.


Lutar contra os valores-viscerais é mutilar-se.

Expulsar idéias é tarefa árdua.

É preciso revirar o que existe entre as entranhas.

Mas revolucionar é renovar através de danos.

22.2.12

Reflexão

Se quiseres, concordarei com sua insistência
De querer convencer-me da beleza de meus olhos
Mas essa beleza que enxergas, explica-se:
Quando me vê, meus olhos tornam-se belos por conterem a sua beleza refletida neles
A beleza que existe em mim
Só existe perto de você

Compartilhamos uma euforia dissimulada
Ocultamos o que sentimos e negamos a momentânea verdade
Evitamos novos passos
Pelo medo de termos caminhados tão depressa até agora

Os pés se arrastam feito dança.
Percorrem o caminho sem demonstrar pressa,
Apesar da impaciência para cruzarmos juntos a linha do que aparenta ser inevitável
E da ansiedade por lutar contra as consequências que não foram previstas por nós

A vida que se segue com as rotinas desgastantes
E que nos ocupam com infinitas bobagens
Tenta tornar-se importante
Perante ao segredo que guardamos dias atrás

A força para resistir vêm das promessas que fizemos
Prometimentos de que a vida será alegre, divertida e recheada por olhos que se cruzam e pousam, 
que refletem a imagem da companhia desejada
E que se fecham apenas por êxtase.

17.2.12

Rua Tereza, nº 1023

Acordei taquicárdico, assustado. Sabia que fora apenas um pesadelo, mas esse autoconhecimento não me confortou.  Não queria correr o risco de voltar a ter aquele sonho. Desisiti de dormir.

Aos poucos o pouco da claridade que invadia o ambiente ajudava-me a entender onde eu acordara. Meu raciocínio estava lento, minha cabeça doia. Mesmo sem muita nitidez por conta da sonolência, identifiquei alguns móveis: Não eram os meus.

O sol forte abafava. O cobertor - que apesar de cobrir apenas as minhas pernas – passou a me incomodar. Senti uma mão gelada segurando a minha. Virei-me para confirmar quem dormia ao meu lado, embora, pelo ato de apertar as mãos, eu já soubesse: dormia ao lado de Tereza. Dizia só conseguir dormir se nossas mãos estivessem entrelaçadas, que não conseguia ser diferente. Aquilo passava certo conforto a ela e, por isso, não negava, mesmo que me causasse um desconforto algumas vezes. Quando livrava minha mão da dela, apesar de todo cuidado sorrateiro nesse desvínculo, ela não tardava a perceber o vazio nas palmas e, quase sonâmbula, buscava-as novamente. Sinto que Tereza as procurava como uma forma discreta de verificar se já eu havia ido embora.

Pensar nisso incomodou-me e decidi que já era hora de partir. Sem soltar sua mão, mudei minha posição na cama como se ainda estivesse dormindo, de modo a ficar de costas para ela. Lentamente desentrelaçei os dedos e sentei na cama sem causar barulhos.

Num silêncio quase absoluto, levantei e procurei minhas roupas. Vesti a bermuda e busquei a camiseta que estava jogada do outro lado do quarto. Coloquei-a sobre o ombro e, mantendo o silêncio, destranquei a porta. “Minha carteira!” - pensei. Procurei-a em todas as primeiras gavetas de todos os móveis do quarto; Sem sucesso. Costumo guardá-la em lugares fáceis e práticos de se guardar e, portanto, deveria achá-la com a mesma facilidade, mas isso nunca acontece. O difícil é realizar buscas em silêncio: o sono de Tereza é sensível ao fechar de gavetas.

- Aonde você vai? – Disse erguendo o pescoço para conseguir me ver
- Comprar pão. Viu a minha carteira?
- Dentro da minha bolsa. Pode pegar...

Voltei para beijá-la e sai sem mais dizer.

Existe uma praça no final da Rua de Tereza. Desci a ladeira e sentei em um dos poucos bancos cobertos por sombras . As árvores cantavam por assovios. A praça e as ruas estavam vazias e os assovios dos homens ainda não haviam excedido o dos pássaros. Provavelmente ainda era cedo.

Resolvi descansar um pouco no banco em que já estava sentado. Permanecer. Aproveitar o cheiro de mato que a  gelada brisa trazia para organizar os pensamentos. Fiquei ali um bom tempo antes de decidir ir pra minha casa. 

Refletia. Pensava em Tereza, nas coisas que me faziam esquecê-la; No lindo canto vindo dos galhos e como se tornavam ínfimos perto do canto intenso e altivo dos homens, no incômodo e depressão que provavelmente sentiam os pássaros que, por serem melhores músicos, jamais compreenderão a simplicidade das notas ruidosas que saem dos motores e construções humanas.

Percebi, à minha frente, mas do outro lado da praça, uma velha senhora sentada e recostada sob as portas fechadas de um estabelecimento qualquer. 
Espreguiçava-se; Esticava as pernas; Comprimia o dia.

Interessei-me por ela. Intrigou-me. Observá-la naquela manhã seria um ótimo passatempo.

Reparei que não tinha os olhos tristes ou cabisbaixos, pareciam até ter uma certa soberba ou desprezo ao que lhe era alheio. Seu rosto demonstrava cansaço, mas não havia outra expressão que permitisse mais interpretações. Pelas roupas podia-se supor que passava necessidades.

“Mas que besteira a minha!  Entitular pessoas pelas vestimentas: ternos são diferentes de ternos sujos e rasgados, mesmo que tenham sido feitos com o mesmo tecido; roupas que uniformizam limitam as interpretações; camisas pretas com bandas que atravessam ruas ou com Che Gue Varas sem revoluções alguma nada querem dizer,apenas estampam opções e induzem ao consumo.” Mas interpretar a aparência de antemão não é um motivo para julgamentos. Meu cérebro reflete desse modo da mesma maneira que meu joelho refletiria a uma leve martelada.

Levantei do banco a fim de caminhar na praça aproximando-me da velhota. Ao passar por ela, pude ouvir sua voz, mas não entendi o que dizia. Olhava para mim e repetia:
- Você acredita na morte?
Esperei para responder. A resposta parecia óbvia demais.

- Sim, é claro!
- Pois duvide. Ela existe somente para os outros e nunca para você.

Meu silêncio preenchia minhas respotas. Ela continuava:

- A morte é imprevista e incalculável. Até mesmo os enfermos terminais são pegos de surpresa.
- Não dá para advinhar a hora não é minha senhora? – Concordei com um sorriso-riso planejado que mascarava minha vontade de partir.
- Não mesmo querido. – Aprovava e retribuia meu sorriso com uma simpatia banguela. – Nunca teremos a consciência do que é o fim, o nada.

Perguntei: - Você acredita em Deus?
- Sim, claro! – Ela respondia sem pestanejar
- Então, assim como eu, você também perceberá quando a morte chegar. Se escurescer, terá a visão; Se desfalecer: imaginação. Se houver dor, terá o alívio.
- Não vai ter dor no paraíso?
- Acredito que não.
- Mas se a dor não existir, o amor não será possível. Perderemos também a saudade; E os poetas...
- Haverá desapego do passado e do futuro: A vida Eterna!
- Todos os dias eu agradeço a Deus por não ter que ser eterna agora; Neste instante, nesta vida.
- Senhora: Então aproveitemos
        Enquanto ainda temos
         A possibilidade de sentir

- Então vá querido! Vai! – Dizia com impaciência e uma sutil hostilidade –Dê uma volta e vá conhecer as árvores da cidade! Você precisa renascer.

Sorri espontâneamente por ter sido dispensado. Retomei a direção que inciara antes da conversa e distanciei-me dela. Contornei a esquina e decidi não voltar pra minha casa. Deu-me vontade de rever Tereza.

Àquela altura Tereza já teria passado um café. Pedi, peguei e paguei os pães. Subi a Rua de Tereza e bati na porta com paciência.

Ela desceu as escadas e abriu a porta para mim. Havia colocado um vestido azul, discreto, mas que a contornava inteira. 

Estava linda! Provocante, provocou-me enorme deslumbramento. Estonteei! 
E não poderia ser diferente: Tereza fez-me esquecer da velha senhora. E até hoje nunca mais lembrei-me dela.

11.2.12

Aos Montes

Alçar as ideias ao pico. Arrastá-las a força.
Puxadas e amarradas por cordas firmes e apensadas com nós; Todos cegos.
Laços elevados pel’argumentação

E eis que elas chegam ao sumo, ao cume; aonde tudo se conclui.
A aspiração de toda ideia é tornar-se uma certeza

Ao mesmo tempo em que as novas convicções nos alcançam
Tomam o lugar de outras que nos ocuparam por anos

A ausência de algumas delas tornam possível a confusão:
Entre ingenuidade e coragem;
Entre incertezas e ausência de respostas.

Mas ideias pesam e comprimem o pico cada vez mais
Por vezes afundam. Amarram-se aos pés

Não sabemos ao certo
Se depois de submerso
A respiração será possível

Mas a presença do incerto
Possibilita a descoberta do improvável
Embora também apresente a desconfiança

Por isso tomamos fôlego no último instante.
Prendê-lo-emos ao máximo.

Ao suprimir o ar dos pulmões
Deve-se arriscar respirar o desconhecido

Mas antes que se chegue ao inevitável

É preciso racionar o que se tem como certo

6.2.12

Porvir

Um corredor reto e estreito.

Iluminado apenas por uma forte luz presa no teto
há alguns metros de distância.


Somente a frente,
naquele único lugar iluminado,
podia-se ver paredes de alvenaria e um corrimão enferrujado.
O resto escuridão.
Intuia-se ser um local homogêneo.
Receosamente, ergui o braço e alcançei o corrimão.
Conduzi meus passos mais confiantes a partir dali.


O cheiro úmido
e o som dos gotejos distribuidos
eram percepções sentidas
pelos pés a cada poça que os afundavam.

Do meu lado esquerdo
não havia corrimão.
A proximidade
com a parede
não permitia
 que eu esticasse o braço.

Mas além de tudo e oculto
existia intrínseco, no âmago:
Havia uma certeza. E seguramente absoluta.


A claridade a frente indicava o existente.
Chão, corrimão e espremidas paredes de tijolos laranja-enxarcado.


O que não se via após a luz,
embora estivesse iluminado mas ofuscado pela própria intensidade da lâmpada ,
não fazia a menor diferença.



O único caminho a se fazer apresentava-se a frente.


Possibilidades
de surgirem do escuro
novas passagens
                                                                                 o fez ansioso para
logo ficar sob a luz.


Mas não poderia correr.
O corpo resistia heroicamente à vontade de avançar,
mesmo que não fosse apenas um livre arbítrio do corpo.
O ambiente coibia tal ação.

Os passos se seguiam
no compasso de  alguns regulares gotejos.
O ambiente era maestro.
Regia.

Cansado. Os músculos se sobressaiam
a cada movimento.
Repuxava.
Repiração molhada.                                        Mas estava certo e seguia por convicção.

3.2.12

Enche a Queca

Dores de cabeça que não passam. Latejantes: Arquejam e pulsam.
Dores por desejos latentes.

É tão difícil acertar quando o erro nos vigia de perto

Penso em situações em que o erro e o acerto são diagnosticados pela mesma atitude.
Antagonias se repelem, mas podem coexistir.

As pancadas dão voltas na cabeça:
Sobem, descem, espremem quando não encontram espaço.
Desorganizam o sentir e ressaltam o irreversível.

Relaxo o corpo e amordaço a alma.
Uso recordações na tentativa de trazer conforto
Desfaço nós cerebrais, despressiono.
Deprecio gostos que não me lembro.
Desapego-me do desnecessário.
Despejo inútil. A dor é mais presente do que eu.

Contento-me em ter percebido
Que vidas inteiras tornaram-se apenas memórias.

A dor me afasta do que é vivo
Enclausurando-me em minha cabeça
Idéias, falas oprimidas e lembranças omitidas
São agora pensamentos  pontiagudos.
Revelá-los não trarão outra coisa se não o prolongamento da dor.

Tiro proveito de situações
Curto as dores. Aprendi que sentir algo é manter-se vivo,
Embora, agora, eu aceite qualquer alívio que se ofereça.
Intensifico a vontade de superar o que fora intenso
E peco por errar comigo mesmo

Traio os meus desejos ao persistir conscientemente no erro
Traio os meus anseios ao considerar ambições alheias,
Ao relevar aquilo que me é inerente, intrínseco: exponho-me.
Faço-me frágil diante de mim. 
Traio-me ao permitir a permanência da dor. 
Ao consentir que ela se espalhe. Ao coibir a solução.

1.2.12

Diálogo de dois egos

- Mai... comé qui pódi Juão?
- Sei lá ué, sou assim mesmo. Não é poder ou não poder. É questão de acontecer ué.
- Mai você num fai nada pá mudá? Comé qui pódi si conformá? Si contentá assim?
- As coisas não são fáceis pra mim Martchiélo. Já fiz coisas muito boas e você sabe disso.
- Sei sim. Você foi uma grandi pessoa... sem dúvida.
- Tenho saudades sabia?
- Claro quitem. Mai o que passô só existi na lembrança. Só sérvi de confôrto pra nóis.
- Preenchia o meu dia com aquilo que mais gostava. Não sabia disso na época, mas agora sei.
- Amanhã vai achá qui o hoji tava melhó. E pur quê num si arrisca mais? Tá apegadão ao hoji? – risos
- Todos nós somos apegados ao hoje Martchiélo...
- Menus você, qui dórmi i acórda grudado cu passado.
- E você é diferente em quê?
- Pára com essa mania de se comparar porra! Si compari cum você só. Seja seu parâmetro.
- Comparações são necessárias. E inevitáveis.
- Eu achu qui você só olha pra trás, evita o qui virá e esgota o hoji cum falsos aprendizadus.
- Todo dia aprendemos algo, não fale besteira. Essa conversa simples, por exemplo, não te acrescenta nada?
- Claro! Mai é tão poco que acrescenta qui num dá nem pra percebê. - risos
- Se prestar atenção estamos evoluindo sempre. Querendo ou não. Qualquer coisa besta nos faz diferente do que antes.
- O qui to tentano dizê é qui a velocidadi da evolução é qui é importanti. Então observar os otro evolui te faz evolui junto tamém?
- De certa forma sim. Mas pouco importa a velocidade dos outros. Estão desesperados por reconhecimento. Todos uns vaidosos.
- Preféri a despretensão?! É a sua cara.
- Pelo menos dependo somente do meu reconhecimento de que as coisas estão estagnadas. Não busco aprovações.
- Você num busca nada. Ai qui tá! Só qué consomi as horas com o irreal. Devi ser legal viver esse mundão qui sua cabeça cria.
- Esse mundão aqui tem vários planos, está sempre criando, pensando, refletindo...
- I jugando o redór tamém. Suas idéias si divorciaram do corpo. Pensá é bom, mas num materializa. Vai morre tudo ai.
- Vai nada. Amanhã eu coloco tudo em prática. Se Deus quiser!
- Ele qué sim Juão! Vai dá tudo pra você sem tirar di ninguém.
- Amém!


30.1.12

O Concreto e SAMPA CiTi

O que dizer do chão?
Dos pisos que tanto piso e observo?
Indigno e Indiagonado seguem os meus olhares.
Olhos que miram os pés
Olhos que lembram de outros olhos.


O chão: pernas; calçados; calçadas; cardaços.


                                                A cidade: paralela e transversal.                Faixa de pedestre.


Os olhos: fixos, atentos. Absortos.


Enquanto as sujidades repelem o ideal
Tolero que as lacunas não se preencham por completo
Não se faz mais necessário
O ideal existe, mas não é possível


Solto, na cidade, sou mais um
Sinto-me um alvo
             Embora eu possa oferecer riscos como qualquer outro
Onde os grupos se intercalam?
Onde a loucura é aceita?
Onde não há verdade única.
Onde a cidade ainda não está feita.


Não me importam as verdades ditas,
Nem o quanto de verdade contém nelas
Não me importo que me enganem.
De certo modo, permito.

Pois viver
pode ser
apenas
Perceber as sensações

22.1.12

Chuva (de verão)

Lentamente. Os sorrisos resistiam.
A chuva se pronunciava;
Exalava cheiro de asfalto molhado.
A chuva rala perfumava.

Seu som de queda; Constante
Era música para os surdos de ruído

Tocavam o chão
Tocavam como vassouras jazzísticas

Umedeciam meus melhores pensamentos
E arrastava-os feito uma enxurrada

Os pensamentos mais antigos
Que, por privilégios por tempo de serviço,
Permaneceram fixos e inabaláveis,
Haviam se transformado em amores, religião ou ideologias.

Serei eu o que sempre sobra após as enxurradas?

A chuva é simples.
Não comporta tamanha complexidade e estudo.
Dicotômica e indiferente.
Divide apenas por secos ou molhados.

Iguala e faz-me desimportante:
Minhas dores não são as maiores do mundo.
Embora somente eu as valorize desta maneira.

O que se aloja em minhas ideias torna-se meu 
E de imensurável importância para mim.
Alocam-se em meu organismo:
Onde chuvas não alcançam
E enxurradas não arrastam.

16.1.12

Lacuna


Lembro-me do tempo em que eu não levantava tantas questões. Crianças não se situam no universo. Não havia necessidade de tantas respostas e nem lacunas para serem preenchidas. Éramos somente eu e meu imaginário talento para a arquitetura.

Eu era excelente na arte de projetar formas. Divertia-me criando edifícios em lugares inalcançáveis. Está ai coisa que adoro: Alcançar esses lugares.

Certa vez, em um dos vários terrenos que arredoavam a pequena vila em que eu morava, descobri uma enorme árvore. Era imensa. Nem 100 homens juntos poderiam abraça-la.

No mesmo dia em que a conheci escalei-a e fiz dela uma nova casa. Não precisei de muitas madeiras ou pregoadas, apenas investi muita imaginação. Criei estantes em seus galhos menores e fiz cama dos maiores. Nos galhos em que sempre havia sombra localizei a minha vista secreta. Por que crianças adoram nomeações secretas? De lá pude avistar piratas, cavaleiros do rei Trouxo, bruxas voadoras e diversos outros inimigos.


Imediatamente corri até em casa para fazer as malas para a minha mudança. Não precisei de muitas coisas: apenas alguns objetos, uma bola de futebol e cartas e desenhos que recebera de Ana.


Tenho saudades do tempo em que Ana e meus outros amigos tinham para mim igual valor. Enquanto não dava atenção para desconfortos da alma, simplesmente por que eu ainda não os tinha, brincava com todos sem nenhuma preferência de companhia, embora fossem as cartas e desenhos de Ana as únicas que eu ainda guardava.


Decorei minha nova casa colando todos os desenhos em galhos e folhas, que para mim eram paredes; coloridas; e que mudavam de cor assim que eu quisesse. 

Camuflava-me. Chamava a atenção. Mas quando Ana estava por perto mudava rapidamente a cor para um tom de roxo escuro criando nela impressões maravilhosas: "Qual garoto tem paredes roxas em sua casa de árvore?" certamente pensava. Sempre achei que essa pergunta fosse intrigante demais para que uma garota resista e não se apaixone.


Mas foi justamente Ana quem me deu uma das maiores tristezas sofrida na infância. Assim que eu expliquei a ela que aquela seria minha nova casa e gentilmente a convidei para subir, foi imediatamente dizer aos meus pais que eu queria me mudar sem avisá-los. Tentei mentir, mas ela acusou-me de desentendido e dissimulado. Quem ensina palavras como essas para uma criança?


Quando anunciou a mudança aos meus pais, todos meus outros amigos estavam presentes e meu segredo arbóreo se desfez tão rápido que não pude evitar. Fui condenado a dividir a imensa árvore com todos, exceto com Ana que não conseguia subir sem arranhar-se inteira. Todos meus desenhos, feitos por ela, foram encontrados pelos cruéis invasores e então usados para sempre caçoarem de mim.


Adorava aqueles desenhos, mas passei a odiá-los. Tomei a decisão que qualquer criança sábia tomaria: Abandonei a arquitetura para que minha masculinidade nunca mais fosse afetada por romancear com menininhas idiotas.


Que saudade do tempo em que podia odiar tudo que vinha de Ana. Saudade do tempo em que tudo tinha a mesma valia para mim.
Pois hoje Ana causa tristezas maiores. Mas compará-la a essas memórias descritas ou a qualquer outra coisa que eu consiga me lembrar em dias futuros nunca servirão de parâmetro para o tamanho que ela me ocupou.
Sinto saudade do tempo que nunca vivi.

13.1.12

Caça

 - Corra! Corra! – dizia o ambiente às minhas pernas

Corria. Esfregava as mãos no rosto. Suava. Ofegava.
Barulhos silenciosos, eu e uma densa escuridão
Passos e vozes se aproximavam e por vezes ultrapassavam-me.
Estava cercado? Por que isto seria necessário para eles?

- ME DEIXEM! - Gritei

Os matos revelavam os deslocamentos
Mas o silêncio se fez e não suportei a surdez que ele causou
Era eu o necessitado agora
E coincidentemente por motivos que também desconhecia
Queria ouvir. Estava surdo de silêncio.

Aflição. Agir! Qualquer direção:
Corra! Corra! – alarmava o imprevisível às minhas pernas

O calor abafado que aquela imensidão de nada continha
Ditava os ritmos dos meus compassos
Mudava a direção. Os sentidos. Você consegue sentir o gosto de uma moeda de 1 Real?

As árvores omitiam algo e o algo desejava a minha consciência
Com a mesma intensidade que eu a desejo.
Em ilustrações cegas. Órfão de formas e cego de cores.
Percebi sombras no escuro.

Senti uma respiração em meu ombro.
Gélido. Imóvel. Suspenso.
Permaneço.

11.1.12

Mona

Deliciosas perguntas
Que ficaram entreabertas
Embora já estivesse tudo decidido.
Evitei compartilhar a desejada resposta.
Não quis abreviar nossas conversas.

Interrompia-se a contagem do tempo
Enquanto você falava e me olhava
E quando, vez por outra,
Decidia examinar-me com seus escuros olhos
Fazendo simples observações

Procurávamos discretamente
Demonstrar analogia
Embora fossem suas discórdias,
Seu jeito de me convencer que eu estava errado,
Que mais me impressionavam

A reclusão que pedi
E que aceitaste quase impaciente
Foi meu último recurso
Uma tola tentativa
De me aproximar da negação

Mas a resposta que já existe
Dispensará interlocutores.
Revelar-se-a de súpeto
Aquilo que nossos olhos
Não se esforçaram para esconder.

9.1.12

Pouso

Ofereceram-lhe um voo daqueles que não se oferecem com frequência. Não sabia – e nem teria como saber - a altura que esse voo alcançaria e nem se conseguiria retornar com pouso tranquilo, mas a mistura dos riscos e mistérios que envolviam esse voo causavam nele um diferente frisson.

Para ele era certo que os voos são somente para os pássaros, já acostumados ao convívio junto aos fortes e quentes ventos que sopram lá em cima. Adorava os pássaros, via neles admirável companhia e, por eles, não se atreveria a invadir espaço tão estranho e atraente, mas tal vista que o voo pretendia oferecer-lhe fazia o ponderar se voar também não seria coisa para os homens.

Aliás, qual homem recusaria a oportunidade de voar?

E depois da subida, qual seria a importância de se sentir um ser estranho entre os pássaros ou saber que o mais exaustante esforço nunca o faria um deles?  Mas o que realmente importava naquele momento?

Frios na barriga são importantes.

Tomar decisões é aventurar-se. Não existem vidas passadas para se fazer comparações e nem futuras para correções. Acertos e erros são resultados; apresentam-se apenas no fim.  Aventuras podem trazer receios e serem desgastantes, mas prometem sensações quase-inéditas e inesquecíveis.

Céu pleno; um azul sufocante, intenso e infinitamente extenso. Deitar-se e repousar sob os trópicos não parece ruim. Parece? 

4.1.12

Confissões de Gérson

Tem gente que é soberba. Tália é o nome dessa gente. Mulher esguicha, reta como a linha do horizonte. Tão comprida que a chamava de minha divisora de águas e ela adorava o carinhoso apelido sem desconfiar.

Com a personalidade mais forte que chá de cogumelo e tão boa quanto um chá de boldo, conduzia nossas discussões com notável facilidade, desnivelava a conversa sempre para o lado do que já foi dito, desprezando meus contra-argumentos. Não adiantava perseverar ou praticar esforço, pois ela sempre foi possuidora de ideias com raízes fortes.

Tália era única para mim. Antes dela eu já havia namorado diversas mulheres que insistam em ser o meu ponto fraco, mas tal virtude não fez delas um comparativo digno para com a grandeza que Tália começava a tomar em minha vida.

Tália. Mulher madura, dura com as palavras. Talhava suas ideias num molde de flecha.
Tália foi tornando-se um inferno durante a nossa relação. Certo dia chegou ao ponto de afirmar que meus olhos não eram tão claros quanto minha mãe dizia. Não cabe nem dizer aqui que se trata de um completo absurdo, já que Mamãe me observa há muito mais anos.

Numa outra ocasião fomos comprar sapatos novos e, por conta dela, sujeitei-me ao ridículo. Tália me envergonhou extremamente quando começou uma briga desproporcional com o som ambiente. Revelou-me a todos ao perguntar o porquê d´eu sempre procurar sapatos 40 se na verdade deveria calçar 33.

O problema é que minha amada era ótima na cama e isso compensava tudo. Quando demos a primeira boa trepada - depois de bons 2 anos de boas tentativas – eu percebi que ninguém havia sido como Tália; E nem poderia. Toda mulher tem suas artes na hora da transa e soube disso por ela. Eu enlouqueci quando, numa madrugada, descobri que o seu verdadeiro segredo era lavar-se antes de me acordar para o coito.

Mas eis que surge o irreversível: greve de sexo! Após uma brusca tentativa minha de inovar na transa, chutei-a violentamente no rosto quando busquei surpreendê-la movendo rapidamente minha perna na tentativa de repetir a posição do escorpião-alado que havia visto em uma dessas revistas que dão dicas para agradar o companheiro. Somente depois percebi que tal posição era utilizada pelos japoneses para abrirgar-se em caso de terremoto.

Tália ficou puta! E jurou que nunca mais daria pra mim. Caros, ali... perdi o chão.

Sem justificativas:
A vida é minha e interrompo _ela e no que nela estiver_ no momento em que eu bem entender!

Decidi abandoná-la - sem lhe dar satisfações - e voltar à antiga vida. Retomei meu antigo cargo na carreira pública. Devido ao acúmulo de experiência em meu antigo posto, sou agora o encarregado-mor do Rei Apitômulo: Passo minhas noites erguendo lampiões para aquecer e entreter suas raras mariposas-azuléias-reais.

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